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Expectativa de vida em Marsilac é semelhante à da Somália; já Moema se assemelha à Dinamarca
Expectativa de vida em Marsilac é semelhante à da Somália; já Moema se assemelha à Dinamarca
Foto: HENRIQUE MANREZA/FOLHAPRESS

Na periferia se morre 23 anos mais cedo

MAPA DA DESIGUALDADE. Segundo estudo, expectativa de vida na Cidade Tiradentes é de 57 anos; em Moema, de 80 anos

Cerca de 40 quilômetros e 23 anos de vida separam um morador de Moema, bairro rico da zona sul de São Paulo, de alguém que vive na Cidade Tiradentes, bairro pobre na zona leste. A taxa de mortalidade infantil em Perdizes, na zona oeste, é 23 vezes menor do que o de Marsilac, no extremo sul. Pode-se ir a pé a diferentes cinemas na região da avenida Paulista, mas 54 distritos da Capital não têm sequer uma única sala de cinema.

São Paulo concentra, em uma só cidade, índices comparáveis aos dos países mais ricos e aos dos países mais pobres do mundo, mostra o Mapa da Desigualdade, da Rede Nossa São Paulo, publicado nesta terça-feira, que compara indicadores dos 93 distritos e escancara os contrastes da metrópole paulistana.

Um dos mais gritantes é a idade média ao morrer. Em Moema, a média de idade das pessoas que morreram ao longo do ano passado foi de 80,6 anos - a expectativa de vida da Alemanha e da Dinamarca é de 81 anos.

Já na Cidade Tiradentes, esse número foi de 57,3 anos - pouco mais que um morador da Somália.

A violência é tida como uma das responsáveis por baixar o tempo médio de vida no distrito da zona leste. O impacto é cíclico: a criminalidade é considerada fator de atraso do desenvolvimento econômico - estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estima que as perdas do País com a violência custam o equivalente a 6% do PIB do País.

"Isso mostra as complexidades de se viver em um lugar onde há uma desigualdade tão grande. Existem várias cidades numa só", diz Carolina Guimarães, coordenadora da Rede Nossa São Paulo.

Cidade Tiradentes, o pior em média de vida, fica no extremo leste da cidade. Marsilac, no extremo sul, não deixa por menos: a idade média ao morrer no distrito é de 57,5 anos.

A região concentra alguns dos piores indicadores analisados, como a alta taxa de mortalidade infantil (23 vezes maior do que em Perdizes) e de gravidez na adolescência que é 53,4 vezes maior do que em Moema.

O mapa mostra ainda que a maior parte dos distritos da cidade não têm nenhum equipamento cultural. No domingo (3), o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) pediu que os candidatos escrevessem uma dissertação sobre o acesso ao cinema.

A lógica periferia versus centro, no entanto, "destoa em alguns temas", diz Guimarães. "É interessante pensar que os ricos, que pagam mais para viver, respiram um ar mais impuro e estão mais sujeitos a acidentes de trânsito", afirma ela.

Distritos centrais, como Sé, República e Bela Vista, e áreas ricas, como Pinheiros, Moema, Itaim Bibi e Jardim Paulista concentram até 1.200 vezes mais poluição atmosférica do que bairros afastados e mais pobres, como Marsilac, Parelheiros, Grajaú e Perus.

O principal fator que explica essa desigualdade é o tráfego muito menor de carros nessas regiões.

Pelo mesmo motivo, distritos como Barra Funda, Sé e Bom Retiro, além de áreas ricas como Morumbi, Pinheiros e Itaim Bibi, registram até 13 vezes mais acidentes de trânsito que o Jardim Ângela, São Rafael e Cidade Tiradentes.

"Quando você fala de legislação em São Paulo, é incrível. Tem Plano Municipal pela Primeira Infância, plano de segurança viária, plano de mudanças climáticas. Mas quando vê, esses planos e esses direitos não estão sendo territorializados. Isso mostra como a cidade ainda tem muito a se desenvolver", diz Guimarães. (FP)

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