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Sem receber investimento, ciclovias de São Paulo acumulam problemas

Dos R$ 34 milhões previstos em 2017 e 2018, apenas R$ 283 mil foram usados na manutenção e ampliação da malha cicloviária Por Marcelo Tomaz De São Paulo

Com buracos e ranhuras no asfalto degradado, desbotamento da pintura do piso e ausência de serviços de limpeza e zeladoria, muitas ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas existentes em São Paulo se tornaram perigosas para os ciclistas, que no ano passado viram o número de colegas mortos na cidade crescer 48% (37 contra 25) em relação a 2016, segundo dados do Infosiga.

Quando o prefeito Bruno Covas (PSDB) apresentou – sem prazo e orçamento – a proposta de um novo plano cicloviário na semana passada, ignorou a situação. Apesar de ter previsto R$ 34 milhões para a ampliação e manutenção do modal na capital paulista nos orçamentos de 2017 e 2018, a atual gestão usou somente R$ 283 mil reais desse montante. Apenas a rua Libero Badaró, no centro, que teve a largura reduzida para a criação de uma faixa de estacionamento, foi contemplada.

Em ronda por vias da zona sul e da zona oeste, como na avenida Jair Ribeiro da Silva e nas ruas Miguel Yunes, Fernandes Moreira e Nélson Gama de Oliveira, a reportagem da Gazeta identificou a deterioração contínua da recente estrutura cicloviária da cidade – implantada pela gestão de Fernando Haddad (PT) ao custo de R$ 650 mil por quilômetro, contra R$ 129 mil da feita em Paris.

“Falta de manutenção, buracos, desníveis e trechos mal iluminados causam acidentes fatais e deixam feridos no trânsito”, afirma Aline Cavalcante, diretora da Ciclocidade, Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo.

“As faixas estão apagadas. Falta proteção, aí tentamos entrar na rua e os motoristas jogam os carros em cima mesmo. Escapei de acidentes várias vezes”, conta o metalúrgico Vanderlei Barbosa, de 26 anos, que pedala pela região do Morumbi, na zona oeste, para ir e voltar do trabalho.

“Precisa andar pela rua para não furar o pneu ou estragar a bicicleta. Põe nossa vida em risco, além do risco de atropelamento que já corremos”, relata o analista administrativo Guilherme Sellani, de 33 anos, que usa a ciclovia da avenida Fuad Lutfalla, na zona norte, onde moradores descartam lixo e entulho.

Em Ermelino Matarazzo, na zona leste, a ciclovia da avenida Milene Elias foi vandalizada no começo de agosto. As sinalizações foram pichadas e o piso coberto com tinta preta. “Os carros passaram a invadir ainda mais a ciclovia. Não há mais elementos visíveis que mostrem que ali é o espaço do ciclista”, afirma João Alexandre, de 37 anos, que utiliza o trecho todos os dias.

As dificuldades são parecidas ao longo dos 498,3 km de ciclovias permanentes de São Paulo, a maior parte na periferia. Trechos no miolo dos bairros não chegam aos grandes corredores viários, ciclistas são obrigados a pedalar fora das faixas devido aos obstáculos e problemas de drenagem e asfaltamento são comuns.

Parte da cidade

Entre 2014 e 2015, o número de paulistanos usando bicicletas como meio de transporte aumentou 50% de acordo com o IBGE, alcançando o patamar de 261 mil ciclistas frequentes pela Capital. O mesmo estudo mostrava que nove entre cada 10 habitantes eram favoráveis às ciclovias.

Isso foi percebido durante o ápice do desabastecimento causado pela greve dos caminhoneiros, no final de maio, quando a bicicleta se tornou a principal alternativa de locomoção em São Paulo.

Entre os dias 21 e 27, o contador da avenida Brigadeiro Faria Lima registrou 33.487 passagens, enquanto entre os dias 11 e 17 de junho, depois da paralisação, foram 26.482 passagens. O mesmo aconteceu na rua Vergueiro, que registrou 14.170 passagens no primeiro intervalo e 10.420 no segundo.

A greve colaborou para que a presença de ciclistas na Faria Lima crescesse 40,9% no primeiro semestre de 2018 em comparação ao mesmo período do ano anterior. Em 2017, de janeiro a junho, foram contabilizadas 460.125 passagens de ciclistas. Em 2018, o número subiu para 648.378.

Um estudo elaborado recentemente pela CET sobre as ciclovias da Vila Prudente, na zona leste, mostra que o número de acidentes envolvendo carros, motos, ônibus e outros modais caiu até 32% ao ano depois que os tapetes vermelhos foram pintados na região.

A relação entre ciclovias e segurança no trânsito é apontada por especialistas do mundo todo. A então secretária de transportes de Nova Iorque, Janette Sadik-Khan, já afirmava em 2016 que as ruas da cidade que recebiam faixas para bicicletas tornavam-se mais seguras não apenas para ciclistas, mas também para motoristas e pedestres.

Mudança nos planos

Mesmo com o crescente uso e importância para São Paulo, a bicicleta parece não ser mais uma prioridade da atual gestão. Representantes dos ciclistas temem que, com as novidades apresentadas por Covas, vias já construídas sejam apagadas e trechos planejados não saiam do papel.

“Não há garantia nenhuma de que o que foi discutido e elaborado com representantes de toda a sociedade paulistana no Plano Municipal de Mobilidade será realizado. Nosso compromisso agora é não deixar que nenhuma estrutura seja retirada sem que uma via substituta viável seja construída”, afirma Aline Cavalcante.

Ao menos na apresentação feita pela prefeitura, está prevista a substituição de uma ciclofaixa por uma ciclorrota na avenida Lopes de Azevedo, na zona oeste. O que é hoje uma faixa exclusiva para bicicletas, com pintura e separação dos outros veículos por tachões, se tornará sinalizações no asfalto indicando a presença de ciclistas na via.

No final de abril, em entrevista à “Rádio Eldorado”, o prefeito já havia adiantado mudanças e encomendado um estudo ao secretário municipal de Mobilidade e Transportes, João Octaviano, para mapear o uso das ciclovias na cidade. “Há a necessidade de transformar algumas ciclofaixas em ciclovias, de implantar outras para interligar o sistema e de desativar as que não têm nenhum uso”, disse na ocasião.

A proposta apresentada por Covas indica a criação de dois anéis viários que deverão conectar as ciclovias pela cidade. O primeiro circunda apenas o centro antigo. Já o segundo, mais amplo, circunda a área onde funciona o rodízio para carros na cidade, contemplando parte das marginais Tietê e Pinheiros, além das avenidas Bandeirantes, Tancredo Neves e Salim Farah Maluf. De maneira radial, do centro da cidade para os bairros, a prefeitura propõe fazer cinco vias principais de deslocamento de bicicletas, criando mais 1.420 km de rotas até 2028.

“Não sei de onde tiraram essa ideia. É uma lógica rodoviarista, não de quem utiliza a própria energia para se locomover. Será que os técnicos que estão legitimando isso pedalam ou entendem a lógica de quem anda de bicicleta?”, questiona Aline.

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