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Após STF negar extradição, turco afirma que sente '100% livre'

O governo da Turquia pediu a extradição de Ali Sipahi com base em acusações de terrorismo Por Folhapress De São Paulo

Ali Sipahi, 31, diz que só quer voltar à sua vida normal: ficar com a mulher e o filho de quatro anos, viajar de vez em quando, trabalhar na rede de restaurantes que tem em São Paulo.

Há quatro meses, essa normalidade foi interrompida quando ele foi preso no aeroporto de Guarulhos, voltando de uma viagem com a família para os Estados Unidos, porque o governo da Turquia pediu sua extradição com base em acusações de terrorismo.

Nesta terça-feira (6), o STF (Supremo Tribunal Federal) negou, por unanimidade, a extradição, afirmando que se trata de um caso de crime de opinião e que ele não teria direito a um julgamento justo em Ancara.

Organizações de direitos humanos que vêm acompanhando o caso afirmam que ele é parte de uma perseguição mundial do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, contra opositores do Hizmet, movimento que Erdogan diz ser terrorista, apesar de não haver registros de atos terroristas cometidos por ele.

Sipahi pertence a entidades inspiradas no Hizmet, como o Centro Cultural Brasil Turquia e a Câmara de Comércio e Indústria Turco-Brasileira.

O comerciante, que comemorou a decisão comendo lahmajun - nome da 'pizza' turca e também da rede de restaurantes que tem em São Paulo -, falou à imprensa nesta quarta-feira (7).

"Foram quatro meses muito difíceis", afirmou. "Eu esperava essa decisão, de que não seria extraditado, mas sabia que existia uma possibilidade de me mandarem para a Turquia. Passei muito tempo pensando o que faria se mandassem para lá, se ia encontrar algum advogado que me defendesse, porque não é fácil. Quando adiaram o julgamento, fiquei desesperado porque só queria que passasse logo. Mas no final deu certo."

Após um mês preso preventivamente, Sipahi ganhou em maio o direito de aguardar o julgamento em liberdade - parte do tempo sob medidas restritivas e usando tornozeleira eletrônica. Ele disse que agora se sente "100% livre". "Não desejo a ninguém esse tipo de perseguição, a prisão, o que aconteceu comigo."

Ele agradeceu o apoio de amigos e entidades que o ajudaram no processo e se emocionou ao falar sobre o Brasil, onde vive desde os 19 anos e hoje é cidadão naturalizado. "Mais de metade da minha vida eu passei no Brasil. Fiz universidade aqui, comecei a trabalhar aqui, casei aqui", disse. "Meu sentimento é de confiança no Estado democrático brasileiro e na independência e na confiabilidade da justiça daqui."

O advogado que representa o governo turco afirmou que vai recorrer da decisão do STF. Mas Sipahi diz que não tem medo. "Quando tem justiça, não tenho nenhum medo do que vai acontecer comigo. Quando não tem justiça é que é o problema. Muitas pessoas sofrem na Turquia por causa disso."

A decisão do STF foi considerada paradigmática pela Defensoria Pública da União e por organizações de direitos humanos como a Conectas. Foi também um alívio para a comunidade turca no Brasil e que teme ser alvo de processos semelhantes.

"A decisão transcende o caso do Ali e terá impacto sobre todos os cidadãos turcos residentes no país que não concordam com os rumos autoritários do governo Erdogan. É um importante precedente, que certamente será citado em vários casos futuros", afirmou Theo Dias, advogado de Sipahi.

O defensor público João Paulo Dorini afirma que foi "simbólico" que o STF entrasse no mérito da insegurança jurídica e política na Turquia, não se atendo apenas a questões formais. "É uma decisão histórica que demonstra que o Estado brasileiro não vai extraditar um cidadão estrangeiro que esteja sendo perseguido politicamente", disse

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