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Quarta, 16 Outubro 2019 16:12

Centro que atende atletas em SP pode fechar após briga por terreno com a Marinha

O Cete está localizado em um terreno que pertence à Prefeitura de São Paulo e divide a quadra com o Comando do 8º Distrito Naval, instalação da Marinha do Brasil
A Marinha tem solicitado o terreno em que funciona o centro de medicina esportiva, na Vila Clementino A Marinha tem solicitado o terreno em que funciona o centro de medicina esportiva, na Vila Clementino Reprodução/Google Street View
Por Folhapress
De São Paulo

A disputa por um terreno na zona sul de São Paulo ameaça a continuidade das atividades de um centro médico esportivo que todo mês oferece gratuitamente, por meio do SUS, cerca de 700 consultas, 900 sessões de fisioterapia e 100 cirurgias, segundo dados da própria instituição.

Localizado na rua Estado de Israel, na Vila Clementino, o Centro de Traumato-Ortopedia do Esporte (Cete), pertencente ao Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Unifesp, funciona no local há mais de nove anos. O espaço oferece tratamento para esportistas, especialmente atletas de baixa renda, e nele trabalham 225 profissionais de saúde (médicos, fisioterapeutas e educadores físicos), em sua maioria voluntários. Por lá já passaram medalhistas olímpicos como Maurren Maggi e Arthur Zanetti, além de vários atletas, paratletas e ex-atletas.

Além de oferecer atendimento a esse público, também provê serviços de odontologia, psicologia, nutrição e outras especialidades à população, também por meio do SUS. Na área de ensino, o Cete tem uma das melhores residências em medicina esportiva do país e recebe anualmente 15 residentes médicos.

O Cete está localizado em um terreno que pertence à Prefeitura de São Paulo e divide a quadra com o Comando do 8º Distrito Naval, instalação da Marinha do Brasil. Desde o ano passado, e mais intensamente agora, Cete e Marinha têm entrado em conflito pelo uso do terreno, e a disputa pode inviabilizar os serviços do centro.

O Cete tem um acordo de cessão de uso precário com a prefeitura, segundo o qual pode usar o local mediante renovação periódica da licença.

Com a concretização da doação, seria possível fazer investimentos mais robustos no local, tanto públicos como privados, já que não haveria risco de eventualmente perder o terreno.

No entanto, a Marinha tem solicitado o terreno em que funciona o centro de medicina esportiva. Segundo o argumento apresentado à prefeitura, a Marinha teria recebido do prefeito Jânio Quadros, em 1988, uma autorização de uso do terreno por 40 anos (prorrogáveis por mais 40).

A reportagem da Folha de S.Paulo entrou em contato com a Marinha por meio de sua assessoria de imprensa para que o argumento fosse explicado com mais detalhes, mas não teve retorno.

Segundo o vereador Gilberto Natalini (PV), que participou das negociações para que o centro fosse instalado ali em 2010, a Marinha nunca chegou a tomar posse do terreno, que posteriormente foi, então, cedido por meio de decreto para uso de um clube chamado Adamus, que, quando deu lugar ao Cete, estava praticamente abandonado.

Nesta quarta-feira (16), a Câmara Municipal deverá votar um projeto de lei sobre a venda de terrenos do município e que tratará do tema. De um lado, vereadores mais próximos do Cete apoiarão a doação do terreno para a Escola de Medicina da Unifesp. De outro, vereadores da base do prefeito Bruno Covas (PSDB) proporão a doação do espaço à União.

De autoria do Executivo, o texto da lei provavelmente proporá a doação do terreno para a União. Vereadores como Natalini e Police Neto (PSD) tentarão que a doação seja direcionada especificamente para a Unifesp.
"Vai tirar um serviço médico que atende pelo SUS e com qualidade? Tem ensino, pesquisa, e vão entregar para a Marinha fazer alojamentos ali? Nada justifica. Vamos perder o centro de medicina esportiva a troco de nada. Vamos perguntar à população o que ela prefere: alojamentos para a Marinha ou centenas de procedimentos médicos", afirma Natalini.

Coordenador do Cete e chefe da disciplina de medicina esportiva e atividade física, o médico Alberto Pochini enfatiza que o centro precisa continuar instalado no local.

"Se nos tirarem de lá, a Unifesp não terá como nos colocar em uma estrutura funcionante. Teríamos que construir em um terreno zerado. Não sei quanto tempo levaria para voltarmos a ter estrutura de atendimento, perderíamos nossos voluntários que são cerca 90% dos nossos membros. A universidade não tem dinheiro nem para pagar contas de luz hoje, depois de tantos cortes", afirma.

Os vereadores mais próximos do Executivo manifestaram irritação com o que entenderam como uma tentativa de enganá-los por parte da reitora da Unifesp, Soraya Smaili. Presidente da Câmara, Eduardo Tuma classificou como "manobra desleal" o fato de não ter sido informado do imbróglio entre a universidade federal e a Marinha.

"Em reuniões comigo, a reitora da Unifesp em momento nenhum falou que existia uma lei que doava o terreno para a Marinha. Ela me apresentou como se a questão fosse líquida e certa e sem qualquer problema jurídico. Ela omitiu informação. Mentiu para mim ao não dizer", disse Tuma na reunião de líderes da Câmara desta terça-feira (15).

A Unifesp solicitou a doação de três terrenos do município, todos na Vila Clementino. Os outros dois ela deverá receber sem maiores problemas. No entanto, a solução encontrada pela base do prefeito em relação ao imbróglio entre Cete e Marinha foi a de doar o terreno à União. Dessa forma, a União teria que intermediar o conflito entre Marinha e o centro, que deixaria de ser uma questão da prefeitura.

"É mais fácil a interlocução entre eles por meio da União. Vamos autorizar o Executivo a doar o terreno para a União, e que ela faça a destinação do terreno para quem acha que ali deve ocupar", afirma Fábio Riva, do PSDB, líder do governo na Câmara.

Para Police Neto, trata-se de uma leitura equivocada.

"Quem tem que definir o que é importante ter na terra pública municipal é a administração municipal, e não a União. A prefeitura tem que decidir se é melhor ter um centro de medicina ou uma extensão do terreno da Marinha ali.Qual é a vantagem para o cidadão? Transferir o problema é perder a oportunidade de a cidade ser decisiva."

À reportagem, a reitora da Unifesp, Soraya Smaili, afirma que não deseja entrar em conflito com a Marinha. Ela diz ter sido pega de surpresa pelo interesse recente dos vizinhos no terreno, que parecia ter arrefecido após um primeiro impulso durante o ano passado.

Smaili vinha negociando com Bruno Covas, vereadores da Câmara e com membros da Marinha a doação do terreno. Ela diz que conversou com o comandante do 8º Distrito Naval, vice-almirante Cláudio Henrique Mello de Almeida, que teria recusado soluções alternativas, como a cessão de outros terrenos em troca daquele em que está o Cete. "Ele disse que querem aquela área em particular."


*Por Guilherme Seto, da Folhapress

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