últimas notícias

Nilson Regalado

Conhecidas popularmente como sempre-vivas ou margaridinhas, 80% dessas flores raras são enviadas ao exterior
Conhecidas popularmente como sempre-vivas ou margaridinhas, 80% dessas flores raras são enviadas ao exterior
Foto: Divulgação

Brasil ganha título de Patrimônio Agrícola Mundial

Quilombo e flor selvagem dão ao país o 1º título de Patrimônio Agrícola Mundial

O gado curraleiro pé-duro trazido para São Vicente por Martim Afonso em 1534 ainda pasta livremente em seis pequenas comunidades quilombolas na Serra do Espinhaço, em Minas Geras. Nessas paragens remanescentes do ciclo do ouro é assim há três séculos. E esse saber ancestral preservou muito mais do que bovinos em vias de extinção. Nessas terras próximas à cidade histórica de Diamantina até hoje brota um tesouro que acaba de ser reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) como ‘Patrimônio Agrícola Mundial’.

Convivendo lado a lado com roças de subsistência que garantem a segurança alimentar dos descendentes de escravos, a 1.400 metros acima do nível do mar florescem 90 espécies ornamentais conhecidas popularmente como sempre-vivas ou margaridinhas. Extraídas com critério para evitar o colapso na produção, 80% dessas flores de rara beleza são exportadas para Estados Unidos, Holanda, Espanha e Itália. Este ‘buquê’ disputado no exterior compreende também botões e ramagens, que conservam o aroma e a coloração por muito tempo, mesmo depois de secos.

As comunidades que tiveram seus sistemas agrícolas reconhecidos pela FAO têm nomes singelos como Pé-de-Serra, Mata dos Crioulos e Raiz. Essas savanas de altitude no Cerrado brasileiro ocupam uma área de equivalente à de 100 mil campos de futebol e seus moradores chegam a manejar 400 espécies de plantas alimentares e medicinais.

Entre abril e outubro, apanhadores e suas famílias sobem a Serra do Espinhaço para a coleta e permanecem por lá durante semanas. Para eles, é um momento de encontro e de socialização entre as comunidades, reconhecidas pela FAO como guardiãs da agrobiodiversidade pelo uso de sementes crioulas e por preservarem o modo de vida tradicional de seus antepassados. São cerca de 1,5 mil pessoas, descendentes de indígenas e de africanos que chegaram à região nos tempos em quem o Brasil ainda pertencia a Portugal.

Há dez anos, uma cooperativa agrega os apanhadores e comercializa as sempre-vivas de Minas Gerais. Essa é a primeira vez que a FAO reconhece um sistema agrícola brasileiro como Patrimônio Mundial. Outra comunidade tradicional em vias de reconhecimento é a que extrai o capim dourado do Jalapão, no Tocantins. Na América Latina, só comunidades descendentes de incas no Peru, de astecas no México e de índios chilenos também foram reconhecidas pela FAO como guardiões da agrobiodiversidade ancestral.

Filosofia do campo:
"Fiz uma casinha branca lá no pé da serra pra nós dois morar… O lugar é uma beleza eu tenho certeza você vai gostar/Fiz uma capela bem do lado da janela pra nós dois rezar/Quando for dia de festa você veste o seu vestido de algodão… Satisfeito vou levar você de braço dado atrás da procissão/Vou com meu terno riscado uma flor do lado e meu chapéu na mão". Elpídio dos Santos (1909-1970), maestro paulista, in ‘Lá no Pé da Serra’.

Comentários

Tops da Gazeta