últimas notícias

É o momento de o militar demonstrar porque está dando a cara a tapa, diz vice PM de França

A coronel da PM Eliane Nikoluk (PR) já vem sendo preparada para assumir o Palácio dos Bandeirantes caso o pessebista decida renunciar para concorrer a outro cargo Por Folhapress De São Paulo

Uma eventual reeleição de Márcio França (PSB) no próximo domingo (28) pode fazer com que São Paulo tenha a primeira governadora mulher de sua história em 2022.

Candidata a vice, a coronel da PM Eliane Nikoluk (PR), 48, já vem sendo preparada para assumir o Palácio dos Bandeirantes caso o pessebista decida renunciar para concorrer a outro cargo. França, que foi vice de Geraldo Alckmin (PSDB), não poderá disputar novamente o governo.

Nikoluk foi escolhida para a chapa por ser mulher e por ser de direita - o que, segundo ele, traria equilíbrio a sua candidatura. Prestes a se aposentar após 30 anos de Polícia Militar, a coronel responde pelo policiamento do Vale do Paraíba, da Serra da Mantiqueira e do Litoral Norte.

Também é mestre e doutora em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública pelo Centro de Altos Estudos de Segurança "Coronel PM Nelson Freire Terra".

PERGUNTA - Como entrou na política?

ELIANE NIKOLUK - O Capitão Augusto [deputado federal pelo PR-SP] me convenceu, disse que a gente vai viver momentos difíceis e precisa de representação forte de pessoas que entendam de segurança. Outro fator foram minhas filhas, que queriam sair do país. Isso me chocou. Em vez de ir para casa [após se aposentar, aos 30 anos de PM], topei o desafio, inicialmente como deputada estadual voltada para a segurança.

Na pré-campanha, recebi a ligação do partido perguntando se toparia ser a vice do Márcio França. Conhecia ele de poucos contatos, às vezes como governador ele desembarcava na minha região. Consultei alguns amigos, um deles foi o Major Olímpio [senador eleito pelo PSL, coordenador de campanha de Bolsonaro em São Paulo]. Todos foram unânimes de dizer que era um convite irrecusável e, se eu quisesse, ele era uma pessoa boa e valeria a pena me colocar do lado dele.


P - O governador diz que prometeu à sra. que não apoiaria ao PT na eleição. Isso aconteceu?

EN - Quando me chamou, perguntei: governador, há um esquema de corrupção muito grande e não me sentiria confortável se o senhor apoiasse o PT. Eu tenho amigos petistas, não tenho nada contra pessoas. Mas eles [PT] tiveram a chance deles, estiveram envolvidos no maior esquema de corrupção já descortinado. Ele falou: "Coronel, aqui no estado de São Paulo não tem essa hipótese." Outra coisa que falei: "é bom que o senhor saiba, eu sou Bolsonaro, por questão de identidade e de valores".


P - Já era antes?

EN - Antes de cogitar a sair deputada. Eu recebi ele [Bolsonaro] e o filho dele várias vezes no quartel. Um dos que me liberaram emenda parlamentar para comprar equipamento de segurança foi o Eduardo Bolsonaro [deputado federal]. É claro que não concordo com tudo. Uma das coisas que não concordo era a questão da liberação do porte de arma. Defendo a posse. Sou perfeitamente favorável que o cidadão de bem tenha arma na sua casa.


P - Qual a diferença?

EN - O porte é ter arma na cintura, a posse é ter ela em casa -sou plenamente favorável para o cidadão que preencha os requisitos. Agora você imagina na nossa sociedade um monte de gente andando armado para cima e para baixo. Imagina um carnaval, rodeio de Barretos, briga de trânsito? Não dá, eu que sou policial [penso que] é inconcebível.


P - A sra. planeja ocupar alguma secretaria?

EN - Não foi conversado. Jamais entraria para ser figurante, ele [França] quer que eu assuma a coordenação do Jepoe [programa de alistamento civil], que é a menina dos olhos dele. E falou: "A senhora vai me ajudar na segurança pública, que é sua praia."


P - Caso seja reeleito, o governador não vai poder disputar a eleição novamente. Se ele quiser disputar algum outro cargo, vai precisar renunciar e a sra. assumiria o governo. Já conversaram sobre isso?

EN - Já, e ele quase me matou do coração. Quando ele me chamou, falou disso, sim: "Coronel, a senhora vai ter que se preparar porque provavelmente vai governar São Paulo nos últimos meses."


P - Ele falou dos planos dele?

EN - Sinceramente, não sei o que pretende, Senado, Presidência, mas vai tentar algo.


P - O governador tem apoio velado do PT. O que acha disso?

EN - O governador tem palavra. Tão logo houve notícia do segundo turno, ele se posicionou publicamente dizendo que não ia apoiar o PT. Eu pesquisei, nunca vi um vídeo dele falando mal do Bolsonaro. Agora, do Doria, eu já vi vários. Está na hora de parar com extremismo e luta de brasileiros contra brasileiros.


P - O governador é de um partido de centro-esquerda. A senhora tem consciência disso?

EN - Sim, inclusive dentro do próprio partido [PSB] ele é visto como mais de direita. Quando me convidou, perguntei: "Por que eu?" Ele disse que é porque eu era uma mulher, uma resolvedora, que sabia enfrentar problemas e por que eu era de direita.

Eu falei: "Mas por que eu sou de direita?". Ele disse: "É, coronel, estou buscando um governo de equilíbrio. Como sou de centro-esquerda, trazendo a senhora que é indiscutivelmente de direita".

Ele falou: "Vou buscar um governo de composição, quero equilíbrio, diálogo, quero que a gente possa conversar com todos". O fato de ele ser de partido de centro-esquerda não me assustou em absoluto porque ele me trouxe justamente por eu ser de direita.


P - A campanha enxerga na sra., por ser militar, um canal para atingir o eleitor bolsonarista. Concorda com esse papel?

EN - Não só militares. Hoje, não sinto nem questão de esquerda e direita, sinto o antipetismo. A identidade com o Bolsonaro e com militares é a questão do novo, da mudança. O militar traz valores que talvez a população esteja buscando: honestidade, verdade, lealdade, meritocracia, ordem.


P - O PR, partido da sra., é comandado por Valdemar da Costa Neto, que já foi condenado e preso. Não contradiz esse discurso?

EN - Pesquisei todos os partidos, não achei nenhum que não tivesse problemas [ri]. Para se colocar na política, a lei exige que a gente se filie a um partido. Quando me filiei ao PR, foi por causa do Capitão Augusto e porque me deram liberdade. As pessoas têm que responder pelos crimes que cometem.


P - A sra. e outros candidatos militares eleitos se reuniram após um evento na Rota. Vão ter uma agenda comum?

EN - A gente conversou sobre o nosso papel neste momento, a sociedade depositou uma esperança na gente. É um momento em que o militar foi eleito democraticamente. É o momento em que a gente tem que demonstrar porque está colocando a cara a tapa.


P - Qual a diferença de tratamento do governador Márcio França em relação ao ex-governador Geraldo Alckmin com os policiais?

EN - Mais próximo, muito mais acessível para o diálogo. A gente tem sentido essa simplicidade.


P - Alguém da corporação já pediu explicações sobre Márcio França para a senhora?

EN - Sim, por conta desses fakes [que o associam ao PT e ao comunismo]. Pela atitude, pela pessoa que é, a gente só tem ouvido elogios.


P - A senhora acredita que hoje ele teria o voto da maioria dos policiais?

EN - Sim, pela valorização e porque esses anos de PSDB foram muito cruéis para o funcionalismo. O que eu tenho ouvido falar: PSDB nunca mais.


P - O que a senhora achou da declaração do Doria que a partir de 1º de janeiro, caso ele seja eleito, a polícia paulista vai atirar para matar?

EN - Totalmente descabida. Me desculpe, estou falando sob escopo técnico. A policia é treinada para proteger a vida. O uso do armamento envolve técnicas e procedimentos muito bem definidos e temos o Método Giraldi de preservação da vida [que prevê uso progressivo da força], desenvolvido por oficial nosso, patenteado e disseminado para toda a América Latina.


*Por Gabriela Sá Pessoa e José Marques, da Folhapress

Tops da Gazeta