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Doria investiga desaparecimento de dinheiro encontrado nos vagões da CPTM na gestão França

Segundo a apuração preliminar da gestão Doria, as doações realizadas pela CPTM para o Fundo Social nos meses de julho, setembro e outubro não constam nos relatórios bancários da entidade Por Folhapress De São Paulo

Todo dinheiro que é encontrado nos vagões dos trens paulistas é guardado pela CPTM por até três meses. Caso não sejam reclamados os reais, dólares, euros, pesos e liras perdidos - boa parte deixados por turistas -, eles são doados pela companhia ao Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo (Fussesp), entidade estadual de filantropia, atualmente presidida por Filipe Sabará (Novo), com a primeira-dama Bia Doria à frente do conselho.

A gestão João Doria (PSDB) investiga o desfalque de três meses de depósitos desses "trocados" durante o ano passado, na administração de Márcio França (PSB). O episódio contrapõe mais uma vez o tucano ao ex-governador - eles se envolveram em agressivos embates no ano passado, durante a campanha eleitoral.

Segundo a apuração preliminar da atual administração, as doações realizadas pela CPTM para o Fundo Social nos meses de julho, setembro e outubro não constam nos relatórios bancários da entidade. Ou seja, o dinheiro encontrado nos vagões de trens foi recebido pelo fundo, mas não foi depositado nas contas bancárias.

Além disso, em dezembro foi encontrada uma discrepância: a doação da companhia foi de R$ 881,90; US$ 2,46; EUR 5,10; e 1.000 libras libanesas (que equivalem a R$ 2,50 na cotação atual). No entanto, apenas R$ 12,90 foram depositados na conta do fundo.

Nesses meses, quem presidia o Fundo Social era a primeira-dama Lúcia França. Seu marido assumiu o governo do estado em abril, quando Geraldo Alckmin (PSDB) deixou o cargo para participar das eleições presidenciais.

Em média, a CPTM doa pouco mais de R$ 1.000 mensalmente nesse formato. O desfalque desses meses totaliza cerca de R$ 5.700, um valor relativamente baixo, mas cujo sumiço chamou a atenção de funcionários antigos do fundo.

As doações da companhia de trens são feitas em espécie e o diretor técnico do fundo assina recibos atestando a transação. Os recibos referentes a todos os meses foram encontrados pela atual administração.

O diretor entrega esse dinheiro para que outro funcionário do fundo deposite na conta bancária da instituição. Essa operação posterior que agora é alvo de apuração do governo do estado.

Um servidor que já não ocupa mais um posto no Fundo desde o começo do ano e que recebeu os valores do diretor técnico tem sido apontado internamente como a pessoa que deveria saber para onde foi direcionado o dinheiro que não está nas contas do fundo. Ele deverá ser convocado para prestar esclarecimentos.

À reportagem, a gestão Doria afirma em nota que, em um primeiro momento, trata o assunto "como apuração preliminar dos fatos". "O processo foi encaminhado à Assessoria Jurídica do Gabinete do Procurador-Geral do Estado, para conhecer os problemas apontados no despacho do chefe de gabinete deste Fundo Social, convocar os responsáveis para prestar os devidos esclarecimentos, emitir o parecer concluso e devolver ao Fundo Social, constada a infração abertura de sindicância para punir os responsáveis."

Também em nota, o Fundo Social afirma que "constatou a ausência do depósito das doações recebidas da CPTM durante três meses de 2018 e abriu uma sindicância interna para apurar as responsabilidades.

O dinheiro se refere as quantias encontradas nos vagões da empresa, que são repassados mensalmente ao fundo". A entidade ressalta que o dinheiro é utilizado para o pagamento de programas sociais.

Éder Santos, chefe de gabinete do fundo na gestão França, afirma, em nota, que "a gestão do Fundo Social que terminou em 2018 deixou R$ 18 milhões em caixa. Os procedimentos de recebimentos de doações estavam a cargo do setor Administrativo e Financeiro, sob responsabilidade de funcionários de carreira desde o governo Geraldo Alckmin (PSDB). Diante das informações que agora recebo da Folha de S.Paulo espero que sejam apuradas e os eventuais responsáveis devidamente cobrados pelos seus superiores".

O ex-governador Márcio França reforça à reportagem que os responsáveis devem ser encontrados. Ele diz que o fundo tinha "centenas de funcionários" e que operações como essas doações, que ele afirma que nem sabia que existiam, não passavam pela primeira-dama, mas pelos setores técnicos.

"O fundo tem centenas de funcionários, uma pequena parte apenas em cargo de comissão. Quando a Lúcia foi para lá, ela trocou apenas três ou quatro. O resto ficou. Claro que ela mesma não tinha acesso a doações desse tipo", diz o ex-governador. "Toda a parte financeira de uma companhia e tocada pelo diretor financeiro. Nenhum secretário tem contato com esse dinheiro nem a presidente do Fundo Social [...] Dinheiro miúdo é tratado por funcionários."

França ainda ressalta que o funcionário responsável por fazer o depósito dos valores na conta do fundo tem que ser chamado, sim, para prestar esclarecimentos, para que se descubra, então, o que de fato aconteceu na operação.

Sobre a relação com Doria, o ex-governador diz não ver mais turbulências.

"O papel do governador é governar. Desde o início fizemos a transição acordada e cada um tem, claro, seu próprio estilo. Somos diferentes, mas nos respeitamos. Eleições já acabaram ou ainda estão longe."

QUANTO A CPTM DOA PARA O FUNDO

Em 2017: R$ 11.671,75

Em 2018: R$ 13.950,23

Jan/18: R$ 1.536,13 (dólares americanos, centavos bolivianos e meticais de Moçambique)
Fev/18: R$ 1.521,54 (dólares americanos e libras esterlinas)
Mar/19: R$ 1.264,40 (euros, centavos bolivianos, centavos cubanos, centavos chilenos, pesos uruguaios, libras esterlinas e riais iranianos)
Abr/18: R$ 907,70 (euros e dólares americanos)
Mai/18: R$ 1.207,25 (dólares americanos, libras esterlinas e pesos argentinos)
Jun/18: R$ 1.291,12 (dólares americanos, dólares canadenses e pesos argentinos)
Jul/18: R$ 847,79 (dólares americanos, pesos argentinos e libras egípcias)
Ago/18: R$ 1.447,49 (sois peruanos e dólares americanos)
Set/18: R$ 777,69 (dólares americanos e pesos argentinos)
Out/18: R$ 1.222,40 (dólares americanos, pesos chilenos e pesos argentinos)
Nov/18: R$ 1.010,82 (dólares americanos e guaranis paraguaios)
Dez/18: R$ 915,90 (libras libanesas, euros e dólares americanos)

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