Inadimplência cresce e governo federal prepara novo Desenrola

Estudo em andamento mira parcelas menores, mas uso do FGTS levanta alerta entre os especialistas

Durigan participa da elaboração do novo Desenrola para reduzir inadimplência

Durigan participa da elaboração do novo Desenrola para reduzir inadimplência | Marcelo Camargo/Agência Brasil

O governo brasileiro estuda lançar uma nova etapa do programa de renegociação de dívidas, o Desenrola 2.0. A ideia é reduzir o valor das parcelas e evitar que consumidores voltem a ficar inadimplentes poucos meses após a renegociação. A proposta ainda está em análise e não foi apresentada oficialmente.

Dados do Banco Central mostram que parte dos beneficiários do Desenrola original voltou a atrasar pagamentos após a renegociação. Na primeira fase, o programa movimentou quase R$ 53 bilhões e atendeu cerca de 15 milhões de pessoas, segundo balanços até maio de 2024.

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FGTS entra no debate e divide governo e entidades

Entre as alternativas em estudo pelo Ministério da Fazenda está o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como garantia nas dívidas renegociadas. Com essa proteção, a expectativa é que os bancos assumam menos risco, o que pode abrir espaço para a redução das taxas de juros e tornar o crédito ao consumidor mais acessível.



A proposta, porém, enfrenta resistência de entidades de defesa do consumidor e sindicatos, que alertam para o risco de comprometimento de recursos voltados ao desemprego, compra da casa própria e aposentadoria.

O Procon-SP afirma que qualquer mudança deve preservar o “mínimo existencial” e respeitar as normas de proteção ao consumidor.

Na mesma linha, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) defende que mudanças no FGTS não devem expor os trabalhadores a práticas de abuso financeiro, enquanto o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) alerta para o risco de enfraquecimento do fundo e possíveis  impactos negativos sobre famílias de baixa renda.

Por que os juros seguem nas alturas no Brasil

Mesmo com descontos obtidos em renegociações, o custo do crédito continua alto no país. Modalidades como cartão de crédito e cheque especial seguem entre as mais caras do mercado. No rotativo do cartão, os juros podem ultrapassar 450% ao ano, segundo o Banco Central

Esse cenário reflete o risco elevado dessas operações, o spread bancário e a lentidão na transmissão da queda da taxa básica de juros para o consumidor. Ou seja, mesmo com melhora no ambiente econômico, o crédito ainda demora a ficar mais barato.

Especialistas alertam que o uso recorrente do rotativo pode levar ao efeito de “bola de neve”, comprometendo o orçamento das famílias mesmo após renegociações. A recomendação é evitar essas linhas e buscar alternativas com juros menores.

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O que falta para o novo Desenrola sair do papel

O Desenrola 2.0 segue em fase de elaboração e, até o momento, não foi enviado ao Congresso Nacional. O governo discute mecanismos para evitar o reendividamento, mas não detalhou as medidas que devem ser adotadas.

Nos bastidores, a equipe econômica acompanha fatores que pressionam o orçamento das famílias. Declarações do presidente Lula sobre maior regulação das apostas online , as chamadas “bets”, colocaram o tema no debate sobre endividamento.

Além disso, mudanças no IPI também são monitoradas por seus efeitos sobre preços e poder de compra.

Enquanto isso, indicadores de comprometimento da renda seguem no radar do Banco Central e devem orientar o desenho da nova política. O desafio, segundo analistas, será ampliar o acesso ao crédito sem comprometer o equilíbrio financeiro das famílias no longo prazo.