Um levantamento publicado em junho deste ano na Revista Brasileira de Epidemiologia revelou que mais da metade dos acidentes com cobras no estado de São Paulo ocorre em áreas urbanas ou periurbanas, e não apenas em zonas rurais, como costuma se imaginar.
O estudo, conduzido por pesquisadores do Instituto Butantan, Ministério da Saúde e Universidade de São Paulo, analisou 17.740 casos registrados entre 2010 e 2022 no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e indica que o avanço desordenado das cidades tem aproximado serpentes peçonhentas da população.
O estudo sugere que essa alta incidência pode estar relacionada a um fenômeno chamado “urbanização dos acidentes ofídicos”.
De acordo com uma das autoras, Fan Hui Wen, “o processo de urbanização desordenado, típico das grandes cidades brasileiras, atrai roedores (presas das cobras) e aumenta as chances de encontro com o animal”.
Para Fan Hui Wen, que é diretora técnica de produção de soros do Instituto Butantan, a presença das serpentes em ambientes urbanos também é explicada pela capacidade de adaptação delas.
Regiões de risco
A pesquisa demonstrou que a jararaca (gênero Bothrops) foi responsável por 61% dos casos.
Os municípios de Iporanga, Sete Barras, Miracatu, Juquiá e Barra do Turvo estão entre os mais afetados por essa espécie, porque têm clima quente e úmido, além de ficarem próximos a áreas de floresta tropical.
Já a cascavel (gênero Crotalus), ligada a ambientes mais secos, representa 12% dos registros. No caso dela, o alerta vai para Rifaina, São Francisco, São João das Duas Pontes, Cássia dos Coqueiros e Santa Mercedes.
Embora represente apenas 1,2% dos casos, a coral-verdadeira (gênero Micrurus) tem alta letalidade. Elas são especialmente perigosas em regiões como Juquitiba, São Lourenço da Serra, São Francisco, São Pedro e Tabapuã.
Perfil das vítimas
Segundo a pesquisa, homens de 20 a 59 anos foram os mais atingidos por acidentes com cobras.
Outro dado relevante é que boa parte das vítimas foi picada fora do município onde mora, durante deslocamentos a trabalho ou lazer.
Em média, os acidentes ocorreram a 50 quilômetros de distância de casa, mas alguns casos chegaram a ocorrer até 800 quilômetros.
A maioria dos registros se concentrou no verão, período marcado por chuvas intensas e maior atividade das serpentes.
Já no inverno, os acidentes diminuem, embora os envolvendo cascavéis permaneçam estáveis ao longo do ano.



