Falta de água assusta moradores; entenda a crise hídrica de São Paulo

Especialista explica que a cada estiagem o nível de água está inferior ao do ano anterior

Sistema Cantareira vive pior crise dos últimos 10 anos

Sistema Cantareira vive pior crise dos últimos 10 anos | Danilo Verpa/Folhapress

A crise hídrica é uma realidade cada vez mais dramática em São Paulo. O sistema opera no início de novembro com 28,3% da capacidade, mesmo após fortes chuvas. A Grande São Paulo enfrenta o pior cenário hídrico desde a crise histórica de 2014 e 2015.

O tema se torna ainda mais relevante devido à COP30, a conferência sobre mudanças climáticas da ONU (Organização das Nações Unidas), que será realizada entre 10 e 21 deste mês em Belém, capital do Pará.

Para Antonio Giansanti, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), o drama aos moradores se acentua de ano a ano. A cada estiagem, que dura normalmente de abril a setembro, o nível de água está inferior ao do ano anterior.

Nos últimos três anos vem decrescendo o volume mínimo do Sistema Cantareira, o principal manancial de São Paulo. Além do desafio usual para abastecer uma metrópole de 22 milhões de habitantes, soma-se o efeito das variações climáticas”, explicou o especialista.

Ele lamentou que cerca de 30% de água potável é desperdiçada diariamente, e que é necessário agir cada vez mais para reduzir as perdas nos sistemas de distribuição.

Entre os exemplos de ações possíveis são o uso de aparelhos sanitários domiciliares mais eficientes. Ele defende um programa público de troca de vasos sanitários antigos, por exemplo.

O fundamental, contudo, é a proteção dos mananciais. As chuvas na região acontecem em maior volume normalmente de outubro a março, e estiagem segue de abril a setembro. O que se reserva no período mais chuvoso deve, em tese, ser usado na época de maior seca.

“Ao chover, parte das vezes não conseguimos reter a água nos mananciais, por meio de infiltração. Simplesmente a água vai embora, por falta de vegetação e por áreas impermeáveis. Temos que atuar na proteção dos mananciais, ainda mais numa situação climática incerta”, explicou.

Ele ainda disse que a disponibilidade hídrica por habitante por ano em São Paulo é quase igual ou até inferior à de quem vive no deserto. “Por isso temos sistemas de abastecimento e represas para todos os lados da região metropolitana”.

Governo anuncia ações

Na última semana, o governo paulista anunciou que a Grande São Paulo terá um modelo inédito e mais moderno de acompanhamento e gestão integrada dos recursos hídricos, para proteger reservatórios e mananciais do Sistema Integrado Metropolitano (SIM) e garantir o abastecimento da população.

A metodologia do Governo do Estado estabelece sete faixas de atuação conforme os níveis de reservação nos períodos de chuva e de estiagem.

Ainda conforme o governo, a metodologia permite planejar ações a partir de projeções que consideram patamares de segurança para reservação no SIM, afluências, consumo e volume de chuvas, monitorados permanentemente pela SP Águas de modo a garantir a atualidade das projeções caso as variáveis se alterem.

São definidas faixas de atuação sobre uma curva de projeção de 12 meses. O objetivo é que as medidas previstas em cada faixa sejam aplicadas sempre que necessário durante todo o ano, visando a estabilidade dos reservatórios.

“O trabalho integra a SP Águas, sob coordenação da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, e a Defesa Civil, para garantir segurança hídrica no curto, médio e longo prazo, considerando todas as variáveis necessárias de segurança hídrica”, garantiu Thiago Mesquita Nunes, diretor-presidente da Arsesp.

Campanhas educativas

Para o professor do Mackenzie é fundamental haver campanhas permanentes de educação sanitária ambiental para o grande público, como acontece em outras regiões que vivem o mesmo problema da região metropolitana da capital.

Ele não é contrário, inicialmente, a usar a água tratada das estações de esgoto para recarregar reservatórios, medida em estudo pela Sabesp e considerada polêmica por parte da população. O especialista viu medidas semelhantes em outros países, com total segurança.

“A tecnologia está disponível. Precisamos saber aplicá-la, com monitoramento, ensaios e validação social”, continuou Giansanti.

Ele também afirmou ser um erro colocar toda a culpa pela crise hídrica na Sabesp, privatizada recentemente. “Ela não é dona do manancial, ela utiliza as águas. Quem tem que cuidar do uso e da ocupação do solo são as prefeituras.

É preciso ainda, explicou, ter políticas públicas que remunerem os municípios corretamente pela gestão hídrica, para não se sentirem apenas “caixas d’água da região metropolitana de São Paulo”.

“A Sabesp tem que cuidar do tratamento de água, da redução de perdas, da operação e manutenção dos sistemas de água e esgoto para garantir a segurança hídrica de São Paulo. Mas existem outros papéis de outros entes federativos. Os municípios não podem ficar só com ônus. Eles precisam do bônus também”, completou o especialista.