Neve, lagos e estações de esqui em pleno deserto. É essa a proposta de Trojena, empreendimento da Arábia Saudita que prevê a criação de uma cidade de inverno dentro de uma cadeia montanhosa. A inauguração está prevista para o fim do ano.
Integrada ao megaprojeto NEOM, a iniciativa envolve investimentos bilionários e aposta em tecnologia, energia renovável e obras de grande escala para contornar o clima extremo, a escassez hídrica e a instabilidade geológica da região.
O empreendimento está sendo construído nas montanhas Sarawat, em uma área de cerca de 60 km², com trechos que ultrapassam 2.600 metros de altitude.
O governo saudita planeja sediar no local os Jogos Asiáticos de Inverno de 2029, apesar da ausência de tradição esportiva ligada à neve no país.
A construção faz parte de uma nova onda de projetos voltados para a diversificação da economia do país, como o recente parque Six Flags Qiddiya City, que possui a montanha-russa mais rápida do mundo.
Engenharia contra a montanha
Diferentemente de projetos em áreas planas, Trojena avança sobre um sistema geológico complexo, marcado por rochas fraturadas, encostas íngremes e risco permanente de erosão e deslizamentos.
Antes da construção dos edifícios, a própria montanha vem sendo reconfigurada, com grandes volumes de material escavados para a formação de plataformas, túneis e áreas de apoio à infraestrutura.
Neve, água e energia no deserto
Mesmo em altitude, a ocorrência de neve natural é esporádica. Para atender a padrões turísticos e esportivos, o inverno terá de ser produzido artificialmente, o que exigirá grandes volumes de água e energia para alimentar canhões de neve e sistemas de refrigeração.
Sem rios e com índices pluviométricos reduzidos, a água será captada no Mar Vermelho, dessalinizada e bombeada até áreas elevadas. O abastecimento passa a depender de uma operação contínua, sujeita a perdas por evaporação, vazamentos e aos efeitos do congelamento e do degelo sobre tubulações e reservatórios.
O governo afirma que Trojena operará com energia 100% renovável, combinando fontes solar, eólica e hidrogênio verde.
Impactos ambientais
Além dos custos operacionais, há impactos ambientais de médio e longo prazo, como alterações nos sistemas de drenagem, pressão sobre ecossistemas montanhosos e mudanças na composição do solo.
Esses efeitos tendem a se acumular ao longo do tempo, muitas vezes fora do campo imediato de monitoramento.
As obras já são visíveis em imagens de satélite e indicam avanço significativo da infraestrutura. Resta saber se os sistemas mais críticos — como abastecimento de água, geração de energia e estabilidade estrutural — serão capazes de operar em larga escala e de forma sustentável.




