O que leva adolescentes a maltratarem animais? Psicólogo alerta para risco do ‘efeito contágio’

Morte do cão comunitário Orelha, espancado por adolescentes na Praia Brava, em Santa Catarina, acende alerta para a pauta

Assassinato do cachorro orelha reacendeu a discussão sobre maus tratos aos animais

Assassinato do cachorro orelha reacendeu a discussão sobre maus tratos aos animais | Reprodução/YouTube

A morte do cão comunitário Orelha, espancado por adolescentes na Praia Brava, em Santa Catarina, chocou o Brasil. Esse tipo de violência, segundo especialistas, costuma ser apenas o começo de um problema maior.

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O cachorro Orelha vivia há cerca de dez anos na região e era cuidado por moradores e comerciantes locais. Ele foi atacado no início de janeiro por um grupo de adolescentes e levado a uma clínica veterinária, mas não resistiu à gravidade das lesões.

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A Polícia Civil de Santa Catarina abriu investigação, cumpriu mandados de busca e apreensão, recolheu celulares e dispositivos eletrônicos e indiciou familiares dos jovens pelo crime de coação de testemunhas.

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Não é caso isolado

Para o psicólogo Brendo Gabriel, formado pela Universidade Anhanguera, a violência contra animais dificilmente acontece de forma isolada. “A crueldade contra animais raramente é um evento isolado; ela funciona como um sintoma de desordens psíquicas ou déficits de maturação”, afirma.

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Segundo ele, a falta de empatia, a busca por poder e controle e a desumanização do outro estão entre os principais fatores por trás desse tipo de comportamento.

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O especialista explica que, em muitos casos, o ambiente em que o adolescente está inserido tem peso decisivo. “Se o ambiente familiar utiliza a força como método de resolução de conflitos, o jovem aprende que o mais forte tem o direito de subjugar o mais fraco”, diz Brendo, ao mencionar o ciclo de violência.

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Exposição do caso

Do ponto de vista do desenvolvimento, a adolescência é um período marcado por maior impulsividade. “O córtex pré-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, só completa seu desenvolvimento por volta dos 25 anos, enquanto o sistema límbico, ligado às emoções, está no auge”, explica o psicólogo.

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Nesse cenário, a pressão do grupo pode levar à perda do senso crítico individual e à normalização da agressividade.

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A exposição do caso Orelha também acende um alerta sobre os riscos da repercussão excessiva. Segundo Brendo Gabriel, existe, sim, a possibilidade de imitação.

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“Quando a violência ganha visibilidade extrema, indivíduos com traços semelhantes podem ver no agressor um modelo de notoriedade”, afirma. Ele destaca ainda o conceito de desengajamento moral, no qual a violência passa a ser relativizada. “Justificativas como ‘era só uma brincadeira’ ajudam a normalizar atos graves”.

Sinais de alerta

Entre os sinais de alerta que pais, escolas e responsáveis devem observar estão a ausência de remorso, o uso frequente da mentira para escapar de responsabilidades e a agressividade contra seres mais vulneráveis.

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“É fundamental observar como o adolescente lida com frustrações e imprevistos, se consegue regular suas emoções ou se age por impulso”, alerta o psicólogo 

Para Brendo, a resposta a casos como o de Orelha precisa ir além da punição isolada. “Apenas a terapia individual é insuficiente. É necessária uma intervenção sistêmica, com aplicação das medidas socioeducativas, terapia familiar e práticas de justiça restaurativa”, defende.

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Após a repercussão, Santa Catarina aprovou a Lei nº 19.726, que institui a Política Estadual de Proteção e Reconhecimento do Cão e Gato Comunitário, reforçando que animais sem tutor definido também devem ser protegidos pela sociedade e pelo poder público.