A bioeconomia deixou de ser apenas uma promessa associada à Amazônia para ocupar um lugar estratégico na agenda de desenvolvimento do País. Nesse contexto, o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA) vem se consolidando como uma plataforma capaz de transformar ativos da floresta em soluções industriais, negócios sustentáveis e impacto socioeconômico concreto, ao conectar ciência, biodiversidade e mercado.
Sob a gestão de Márcio de Miranda Santos, o CBA atravessa uma nova fase, marcada por maior autonomia institucional, articulação em âmbito nacional e fortalecimento de parcerias com a indústria, o sistema de ciência e tecnologia e comunidades tradicionais.
Esse reposicionamento ganhou força a partir da integração efetiva do Centro à agenda do Governo Federal, com o apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), responsável por liderar a construção de um novo modelo de gestão e assegurar personalidade jurídica à instituição por meio de um contrato de gestão. O processo teve como entidade gestora a Fundação Universitas de Estudos Amazônicos (FUEA), vencedora do certame.
Nesta entrevista, o diretor-geral do CBA detalha como o Centro deixou de ocupar um papel secundário para assumir protagonismo na política nacional de bioeconomia. Ele também aborda os resultados já alcançados, o compromisso contratual com comunidades ribeirinhas e povos originários e a ambição de posicionar o Brasil como referência global em desenvolvimento sustentável a partir da Amazônia.
CBA tem se posicionado como um elo entre ciência, biodiversidade e mercado. Na prática, como o Centro atua hoje como braço de suporte da indústria no desenvolvimento da bioeconomia brasileira?
O Centro de Bionegócios da Amazônia reúne hoje todas as condições técnicas, científicas e institucionais para apoiar a indústria que deseja incorporar ativos da floresta amazônica em seus processos produtivos, produtos e cadeias de valor. Atuamos como um facilitador entre ciência, biodiversidade e mercado, reduzindo riscos tecnológicos, regulatórios e de acesso à informação.
É importante destacar que o CBA não atua de forma isolada nem concorrencial. Nosso modelo é colaborativo. Trabalhamos para somar esforços com outros Institutos de Ciência e Tecnologia, universidades e centros de inovação, construindo soluções conjuntas que acelerem a transição da indústria para um modelo mais verde, eficiente e sustentável.
Márcio de Miranda Santos assumiu o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA) e pretende deixar grande legado. Foto: Divulgação Um exemplo concreto dessa atuação é a parceria com o Instituto Eldorado no desenvolvimento da plataforma Ybyrá. Trata-se de uma ferramenta estratégica que consolida dados de diversas cadeias produtivas e culturas agrícolas dos municípios do Amazonas, permitindo à indústria conhecer o potencial produtivo sustentável de cada território.
Essa plataforma, desenvolvida a partir de dados coletadas pelo Laboratório de Inteligência do CBA, apoia o planejamento territorial, reduz a assimetria de informações e oferece uma base sólida para decisões de investimento, pesquisa, desenvolvimento e inovação. É assim que o CBA atua: conectando dados, ciência e biodiversidade para gerar soluções reais para a bioeconomia brasileira.
Falamos da indústria, das instituições de PD&I e como é a relação do CBA com as comunidades ribeirinhas da Amazônia, povos originários ?
A relação do Centro de Bionegócios da Amazônia com as comunidades ribeirinhas e os povos originários é estruturante e contratual. O nosso contrato de gestão estabelece, de forma objetiva, a obrigatoriedade de destinar 30% da receita do CBA a ações voltadas diretamente ao fortalecimento dessas comunidades, com foco em geração de renda, autonomia produtiva e melhoria da qualidade de vida.
Esse compromisso se materializa em ações práticas. Um exemplo concreto é o trabalho realizado com a Associação das Mulheres Agroextrativistas do Médio Juruá, onde o CBA ministrou uma oficina de extração de óleos essenciais e boas práticas de fabricação.
A associação já produzia óleos de forma artesanal, voltada principalmente para feiras e exposições, mas enfrentava limitações para escalar e qualificar essa produção.
Em 2022, as mulheres receberam um destilador por arraste a vapor, capaz de ampliar e profissionalizar a extração dos óleos essenciais. No entanto, o equipamento permaneceu sem uso por falta de capacitação técnica.
Com o treinamento conduzido por pesquisadoras do Centro de Bionegócios da Amazônia, as associadas aprenderam a operar o destilador, padronizar processos e aplicar boas práticas produtivas – e hoje já estão comercializando seus produtos no mercado.
Além disso, o CBA vem trabalhando de forma articulada com outras comunidades, como os manejadores de pirarucu, apoiando a construção de um projeto que visa estruturas e soluções que fortaleçam o manejo sustentável da espécie. Trata-se de um trabalho construído em grupos multidisciplinares, que reúnem diferentes instituições, saberes técnicos e conhecimentos tradicionais.
Estamos confiantes nessa proposta e principalmente por estarmos caminhando junto com o Instituto Mamirauá, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
A bioeconomia exige articulação entre governo, academia, setor produtivo e comunidades tradicionais. Como o CBA tem estruturado essa governança e quais parcerias estratégicas vêm sendo construídas?
A governança da bioeconomia exige coordenação, confiança institucional e capacidade de execução. Nesse sentido, o Centro de Bionegócios da Amazônia tem atuado como um orquestrador de atores, estruturando uma rede sólida que conecta governo, academia, setor produtivo, Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e comunidades tradicionais.
Somente em 2025, essa articulação resultou na formalização de 61 instrumentos de parceria e cooperação, entre acordos de cooperação técnica, contratos de prestação de serviços tecnológicos, protocolos de intenção e memorandos de entendimento. Esses instrumentos dão segurança jurídica, previsibilidade e escala às iniciativas desenvolvidas no âmbito do CBA.
Um diferencial estratégico dessa governança é a presença física de instituições-chave operando dentro do CBA. Hoje, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a Fundação Getúlio Vargas mantêm filiais e representações regionais em funcionamento no Centro, o que acelera processos de inovação, proteção intelectual, transferência de tecnologia e modelagem de negócios.
No campo da inovação aberta, o Espaço CBA de Inovação, nosso hub, reúne atualmente 20 empresas, entre startups, aceleradoras e companhias em estágio mais avançado. Um exemplo é a Dárvore Cosméticos, que está transferindo sua linha de produção de São Paulo para o CBA.
Trata-se de uma empresa que utiliza nanotecnologia no desenvolvimento de biocosméticos, reforçando o potencial do Centro como ambiente de industrialização sustentável a partir da biodiversidade amazônica.
Esse ecossistema integrado, que reúne empresas, ICTs e instituições do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, permite ao CBA atuar como uma plataforma de desenvolvimento, onde pesquisa aplicada, inovação, indústria e impacto socioambiental caminham de forma convergente.
As ações do CBA estão concentradas exclusivamente na Região Norte ou o Centro já atua como uma plataforma nacional, conectando a Amazônia a cadeias produtivas e mercados de outras regiões do país e do exterior?
As ações do Centro de Bionegócios da Amazônia não estão restritas à Região Norte. Embora o nosso território de atuação seja a Amazônia, o CBA opera hoje como uma plataforma nacional de bioeconomia, conectando ativos da floresta a cadeias produtivas, mercados e investidores de outras regiões do Brasil e do exterior.
Temos participado ativamente de rodadas de negócios, missões técnicas e agendas de promoção comercial, tanto no país quanto fora dele, apresentando soluções, projetos e oportunidades estruturadas a partir da biodiversidade amazônica.
Essa atuação permite aproximar a indústria, startups e investidores dos ativos da floresta, reduzindo barreiras de acesso, aumentando a visibilidade dos projetos e criando pontes efetivas entre a Amazônia e os principais polos econômicos.
O CBA se aproxima do terceiro ano do novo contrato de gestão, que finalmente garantiu personalidade jurídica à instituição. Considerando que, por muitos anos, o Centro teve um papel secundário na agenda federal, o que efetivamente mudou na relação com o Governo Federal e na prioridade dada à bioeconomia amazônica?
O Centro de Bionegócios da Amazônia sempre foi concebido como um projeto de Estado, estratégico para o desenvolvimento sustentável do país. No entanto, por muitos anos, a ausência de personalidade jurídica própria limitou a plena execução de suas atribuições e reduziu sua capacidade de operar com autonomia, agilidade e escala.
Esse cenário mudou de forma concreta com a definição de um novo modelo de gestão, no qual tivemos a Fundação Universitas de Estudos Amazônicos (FUEA) qualificada para assumir o contrato de gestão que garantiu personalidade jurídica ao CBA e reposicionou o Centro na agenda federal. Essa decisão evidenciou uma mudança clara de postura do Governo Federal em relação à bioeconomia amazônica, passando do discurso para a estruturação efetiva de políticas, instrumentos e capacidades institucionais.
Nesse processo, é fundamental destacar o papel do IPT e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) que deram contribuições significativas na elaboração do Plano de Trabalho e especialmente o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), especialmente por meio da Secretaria de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria (SEV), que teve uma contribuição decisiva na formatação desse novo modelo, no acompanhamento sistemático das metas pactuadas e na criação das condições necessárias para o fortalecimento da autonomia técnica, administrativa e estratégica do CBA.
Hoje, o Centro opera com maior previsibilidade, capacidade de planejamento e alinhamento às prioridades nacionais de desenvolvimento sustentável, inovação e reindustrialização verde. Isso se traduz em resultados concretos, maior integração com a indústria e um papel mais protagonista do CBA na consolidação da bioeconomia amazônica como política pública de longo prazo.
Em termos de resultados, quais entregas o senhor destacaria como mais emblemáticas dessa nova fase do CBA – seja em projetos estruturantes, apoio à indústria, startups, captação de recursos ou atração de parceiros estratégicos?
Os resultados dessa nova fase do Centro de Bionegócios da Amazônia são visíveis em diferentes frentes e refletem, sobretudo, a consolidação do CBA como uma plataforma de execução. Eu destacaria, em primeiro lugar, a reorganização institucional, que nos permitiu operar com personalidade jurídica, metas claras e capacidade real de planejamento e entrega.
No campo dos projetos estruturantes, avançamos de forma consistente na captação de recursos e na execução de iniciativas estratégicas, com apoio de instituições como a Financiadora de Estudos e Projetos, a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas, fortalecendo a base técnica e financeira do Centro.
Outro avanço emblemático é o fortalecimento do apoio direto à indústria, oferecendo infraestrutura laboratorial, planta piloto, inteligência de dados e suporte tecnológico para empresas interessadas em inserir ativos da biodiversidade amazônica em seus produtos e processos, reduzindo riscos e acelerando o desenvolvimento.
Na área de inovação, o apoio da ABDI foi fundamental para que o Espaço CBA de Inovação se tornasse um ambiente concreto de geração de negócios, reunindo startups, aceleradoras e empresas em diferentes estágios de maturidade, além da aproximação efetiva com o Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, com a presença institucional do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas e da Fundação Getulio Vargas atuando dentro do CBA.
Também destaco a ampliação da nossa capacidade de articulação e atração de parceiros estratégicos, nacionais e internacionais, e a execução de ações que conectam ciência, mercado e comunidades tradicionais, gerando impacto econômico, social e ambiental.
Essas entregas demonstram que o CBA deixou de ser apenas um centro de pesquisa para se consolidar como um indutor de negócios sustentáveis, capaz de transformar ativos da floresta em oportunidades reais para a indústria, para as comunidades e para o país.”
Olhando para os próximos anos, qual é a ambição do CBA ?
A ambição do CBA, para os próximos anos, é se consolidar como uma plataforma nacional de referência em bioeconomia, capaz de integrar ciência aplicada, inovação, indústria e impacto socioambiental de forma estruturada e contínua.
Queremos que o CBA seja reconhecido como um ambiente de desenvolvimento e industrialização sustentável, onde empresas encontram infraestrutura, inteligência, segurança técnica e parceiros qualificados para transformar ativos da biodiversidade amazônica em produtos, processos e negócios competitivos, tanto no mercado nacional quanto internacional.
Ao mesmo tempo, nossa ambição é aprofundar o papel do Centro como indutor de políticas públicas e de inclusão produtiva, garantindo que a bioeconomia gere valor compartilhado, com impacto direto nas comunidades ribeirinhas e povos originários, respeitando os territórios, os saberes tradicionais e a conservação da floresta.
Em síntese, o CBA quer ser o lugar onde a bioeconomia deixa de ser apenas potencial e se torna realidade – com escala, governança, resultados e relevância para o desenvolvimento do Brasil.
