O uso de troncos de árvores no leito de rios, adotado em projetos de restauração fluvial no noroeste dos Estados Unidos, tem sido apontado por pesquisadores como uma estratégia capaz de reduzir a intensidade de enchentes.
A técnica é conhecida como large woody debris (LWD) e se baseia em evidências científicas que reconhecem a madeira submersa como parte da estrutura natural dos rios.
No estado de Washington, milhares de troncos estão sendo reposicionados em rios e córregos para recuperar a dinâmica dos cursos d’água, alterada ao longo de décadas por desmatamento, canalização e obras de infraestrutura.
Como os troncos afetam o fluxo da água
Estudos hidrológicos indicam que troncos posicionados de forma planejada aumentam a rugosidade do leito, reduzindo a velocidade da água durante chuvas intensas. Esse efeito contribui para a dissipação da energia da correnteza e para a diminuição dos picos de vazão, responsáveis por transbordamentos rápidos.
Pesquisas experimentais realizadas na América do Norte mostram que a presença de madeira submersa pode reduzir a velocidade máxima do fluxo em cerca de 10% e aumentar o armazenamento temporário de água em até 30%, ao favorecer a conexão do rio com áreas laterais durante eventos de cheia.
Outro efeito observado é o aumento da infiltração da água no solo próximo às margens, o que reduz o escoamento superficial imediato e ajuda a distribuir o volume ao longo do tempo.
O que dizem os especialistas
De acordo com estudos em geomorfologia fluvial e eco-hidráulica, rios com maior quantidade de large woody debris apresentam menor variação extrema de vazão ao longo do ano. Em períodos chuvosos, a resposta hidrológica tende a ser menos abrupta; em épocas secas, o fluxo se mantém mais estável.
O geomorfólogo David Montgomery, da Universidade de Washington, aponta que a remoção sistemática de troncos ao longo do século XX tornou muitos rios mais rápidos e instáveis. Já a pesquisadora Angela Gurnell, referência internacional no tema, destaca que a madeira desempenha papel central na formação do leito e no controle do escoamento.
Por isso, os projetos americanos utilizam modelagem hidráulica, análise de declividade, largura do canal e histórico de cheias para definir onde e como os troncos devem ser fixados, evitando risco.
A técnica pode funcionar no Brasil?
No Brasil, a aplicação depende do tipo de rio e do grau de ocupação do entorno. Em áreas preservadas, zonas rurais, unidades de conservação ou regiões de cabeceira, a introdução controlada de troncos pode ajudar a reduzir a velocidade do escoamento e amortecer cheias.
Em áreas urbanas, porém, a técnica tem limitações. Rios canalizados, com margens ocupadas e seções estreitas, não oferecem espaço hidráulico suficiente para esse tipo de intervenção sem risco de represamento. Nesses casos, especialistas defendem que a medida só pode ser considerada se integrada a outras ações.
Entre os requisitos apontados estão:
- Estudos hidrológicos detalhados;
- Avaliação de risco para pontes e travessias;
- Integração com políticas de uso do solo e recuperação de matas ciliares.
Solução complementar
A restauração fluvial com uso de madeira não substitui obras de macrodrenagem nem resolve problemas estruturais de ocupação irregular de áreas de várzea. Trata-se de uma medida complementar, alinhada às chamadas soluções baseadas na natureza, cada vez mais usadas em estratégias de adaptação às mudanças climáticas.
Experiências internacionais indicam que, quando bem planejada, a técnica pode reduzir custos de manutenção, aumentar a resiliência dos rios e mitigar impactos de eventos extremos.
