Adeus, ressaca: médicas ensinam a blindar o corpo na folia

Endocrinologista e hepatologista explicam o que acontece no organismo após a bebedeira e derrubam mitos sobre curas milagrosas

Saiba como preparar seu corpo antes dos blocos, o que comer para evitar o mal-estar e quando procurar um médico.

Saiba como preparar seu corpo antes dos blocos, o que comer para evitar o mal-estar e quando procurar um médico. | Pexels

A ressaca é o preço alto que o corpo cobra após os dias de excesso no Carnaval. Dor de cabeça, náuseas e cansaço extremo são sinais claros de que o organismo entrou em colapso momentâneo e precisa de ajuda urgente para se recuperar.

O consumo exagerado de álcool sobrecarrega o fígado, órgão vital para a desintoxicação, e desregula todo o metabolismo. Especialistas explicam que o mal-estar vai muito além do desconforto físico: é um alerta de intoxicação celular.

Se você quer aproveitar a festa até o último minuto sem perder a saúde, é preciso estratégia. Conversamos com uma endocrinologista e uma hepatologista para entender o que realmente funciona para prevenir e tratar esse quadro.

Por que o corpo sofre tanto?

A explicação para o sofrimento do dia seguinte é puramente química. Segundo a Dra. Paula Pires, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o fígado precisa trabalhar dobrado para processar o álcool.

Nesse esforço, ele produz enzimas para quebrar as moléculas de etanol. O problema é que, mesmo depois que a bebida já foi eliminada, a concentração dessas enzimas tóxicas permanece alta no sangue por um bom tempo.

Esse desequilíbrio afeta diretamente o sistema nervoso. É isso que causa a famosa dor de cabeça intensa, a sensibilidade à luz e a irritabilidade que transformam qualquer folião animado em alguém que só quer cama e silêncio.

Nem toda bebida é igual

Você sabia que a escolha do drink influencia o tamanho do estrago? Bebidas escuras, como vinho tinto, uísque e conhaque, possuem substâncias chamadas congêneres, que intensificam os sintomas da ressaca no dia seguinte.

Já as bebidas claras, como vodca e gim, tendem a causar efeitos levemente menores, embora a quantidade ingerida seja o fator principal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) lembra que uma dose padrão equivale a uma lata de cerveja.

Independentemente da escolha, o segredo está na moderação. Intercalar cada copo de álcool com um copo de água é a regra de ouro para diluir a concentração etílica e manter o corpo funcionando minimamente bem.

Estratégia antes, durante e depois

Para quem não abre mão da cervejinha, a preparação deve começar antes de sair de casa. O corpo precisa estar fortalecido para aguentar a maratona. Confira as dicas médicas para reduzir os danos do álcool:

  • Pré-folia: Reforce a hidratação com 2 a 3 litros de água e consuma carnes magras.
  • Durante a festa: Nunca beba de estômago vazio e evite frituras que pesam na digestão.
  • Pós-festa: O repouso é inegociável; durma o máximo que puder para regenerar as células.

A alimentação tem papel crucial. Evite alimentos gordurosos, pois eles aumentam a sensação de moleza e o desconforto gástrico, piorando o quadro de quem já está enjoado.

O que realmente cura a ressaca?

Esqueça as receitas mágicas da internet. Segundo a Dra. Paula Pires, banho gelado, café extraforte ou chás exóticos não aceleram o metabolismo do álcool. O fígado tem seu próprio tempo e não adianta forçar.

O único remédio comprovado é a combinação de tempo, repouso e muita hidratação. Bebidas isotônicas e água de coco são excelentes para repor os sais minerais perdidos com o suor e a diurese provocada pela bebida.

Cuidado com os famosos “remédios antirressaca”. Eles geralmente mascaram sintomas pontuais, mas não corrigem a desidratação nem a hipoglicemia, podendo criar uma falsa sensação de segurança perigosa.

Quando o fígado pede socorro

A hepatologista Patrícia Almeida, doutora pela USP, alerta que o álcool irrita a mucosa do estômago e intestino. Isso explica os episódios de vômito e diarreia que deixam a pessoa prostrada.

Durante a metabolização, o corpo gera acetaldeído. Essa substância é altamente tóxica e responsável pela aceleração dos batimentos cardíacos e pela sudorese excessiva que muitos sentem ao acordar.

Sinais de alerta máximo não devem ser ignorados. Se notar olhos amarelados, urina muito escura ou dor abdominal persistente do lado direito, procure ajuda médica imediatamente para descartar hepatite alcoólica.

A melhor forma de curtir o Carnaval é respeitando seus limites. Manter uma rotina de alimentação saudável e leve ajuda seu corpo a ter resistência para os quatro dias de festa sem “dar perda total”.