Todo ano, entre março e julho, a chuva toma conta da Amazônia. O auge costuma acontecer entre maio e junho. É o chamado inverno amazônico, período em que quem vive na região vê a paisagem mudar semana após semana.
Com a cheia dos rios – especialmente as do Rio Amazonas, que guarda segredos que poucos brasileiros conhecem –, a água sobe devagar até entrar pela mata.
Trilhas somem, praias desaparecem e deslocamentos passam a ser feitos de canoa, como se ruas virassem canais naturais.
Os chamados igapós são justamente essas áreas da floresta que ficam alagadas por meses. Árvores continuam vivas, com o tronco inteiro dentro d’água, formando um verdadeiro bosque submerso.
Depois, entre setembro e dezembro, o nível dos rios recua. O chão reaparece, surgem bancos de areia e muitos caminhos que antes eram navegáveis voltam a ser trilhas.
Animais mudam de endereço
Com o solo coberto, muitos animais deixam hábitos terrestres. Preguiças, macacos e roedores permanecem nas copas e passam semanas sem descer para o chão.
Eles se alimentam do que encontram ali mesmo, principalmente folhas e frutos, reduzindo deslocamentos longos enquanto a floresta permanece alagada.
Até grandes predadores, como as onças-pintadas, entram nesse modo de sobrevivência. Em períodos de extremos climáticos, como já ocorreu durante a seca de 2025 na Amazônia que deixou rios em níveis críticos e isolou comunidades, esses animais também precisam adaptar rotas e estratégias.
Pesquisas do Instituto Mamirauá indicam que elas podem viver nas árvores por até quatro meses. Algumas passam a caçar nadando, pegando jacarés ou animais distraídos perto da superfície.
Comportamentos também mudam
Segundo especialistas, a inundação muda significativamente a oferta de alimento na floresta. Insetos sobem pelos troncos tentando fugir da água, e aves aproveitam o movimento para se alimentar com mais facilidade.
Sem o chão disponível, pássaros passam a ocupar galhos mais altos ou a faixa próxima à superfície alagada, alterando rotas e dieta enquanto dura a inundação.
Já espécies aquáticas como peixe boi, jacarés e botos ganham mais espaço. Eles entram na mata alagada para se alimentar e usar o local como área de reprodução até o nível do rio baixar novamente.


