Há uma provocação que circulou no debate político recente e ajuda a enquadrar o momento do Partido Missão: se nem Jair Bolsonaro, com toda sua força eleitoral, conseguiu fundar e consolidar um partido próprio, como alguém sozinho acreditaria que isso é simples?
A frase, atribuída a Pablo Marçal, sintetiza o tamanho do desafio e do risco que a nova legenda assume ao flertar com uma candidatura própria ao Governo de São Paulo.
O Missão nasce em um sistema político que penaliza partidos sem musculatura parlamentar. Pela cláusula de desempenho que valerá para a legislatura pós-2026, só terão acesso ao fundo partidário, ao fundo eleitoral e ao tempo de propaganda gratuita as legendas que elegerem ao menos 13 deputados federais, distribuídos em pelo menos 9 estados, ou que alcancem 2,5% dos votos válidos nacionais para a Câmara, com no mínimo 1,5% em cada um desses estados.
É nesse contexto que surge a possibilidade de Kim Kataguiri disputar o Palácio dos Bandeirantes. A leitura mais imediata é a do risco:
São Paulo tende a ter uma eleição fortemente polarizada, com enorme vantagem estrutural do atual governador em um eventual projeto de reeleição.
Nesse cenário, Kataguiri enfrentaria grandes dificuldades de vitória, o que poderia consumir recursos e energia justamente do objetivo central do Missão: construir uma bancada federal mínima para garantir sua sobrevivência institucional.
Mas essa não é toda a história. A candidatura de Kim também pode ser lida como uma estratégia kamikaze arriscada, sim, mas não irracional.
Uma campanha majoritária em São Paulo oferece vitrine nacional, amplia conhecimento do nome, mobiliza militância e, sobretudo, pode puxar votos de legenda, ajudando candidatos a deputado federal e estadual a atingirem o quociente eleitoral. Sem um nome competitivo no topo da chapa, o Missão corre o risco de dispersar votos e tornar ainda mais difícil alcançar a cláusula de desempenho.
O dilema, portanto, é real. Lançar Kim pode significar uma derrota previsível no plano majoritário. Não lançá-lo pode representar invisibilidade em um sistema cada vez mais concentrado em grandes narrativas. Trata-se de escolher entre prudência institucional e ousadia estratégica.
Em São Paulo, essa decisão ganha peso dobrado. O maior colégio eleitoral do país não perdoa improviso, mas também recompensa quem ocupa espaço.
Para o Missão, 2026 não será apenas uma eleição será um teste de sobrevivência. Como todo kamikaze político, o voo pode terminar em queda. Ou pode abrir caminho para algo maior.
