A escalada das tensões no Oriente Médio, com foco no conflito envolvendo o Irã, incluindo o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, por onde escoa cerca de 20% da produção global de petróleo, fez o barril do petróleo tipo Brent romper temporariamente a barreira dos 100 dólares, com picos próximos a 119 dólares no início de março, embora atualmente oscile em torno de US$ 89-92.
Para o Brasil, o reflexo é imediato: beneficia o caixa da Petrobras com receitas maiores, mas pressiona custos de transporte, inflação (como o IPCA) e, indiretamente, preços de alimentos na mesa do trabalhador.
O efeito cascata: do barril à bomba
A principal preocupação reside na defasagem dos preços internos. Segundo dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a diferença entre o preço praticado nas refinarias brasileiras e a cotação internacional atingiu níveis alarmantes: cerca de 85% no diesel e 49% na gasolina.
Essa pressão coloca a Petrobras em uma encruzilhada. Embora a estatal tenha abandonado a paridade direta de importação (PPI) em 2023, a manutenção de preços artificialmente baixos por tempo prolongado pode gerar perdas bilionárias.
Estima-se que a companhia possa perder 300 milhões de dólares para cada 10 dólares de alta sustentada no barril caso não haja repasse.
Inflação e juros: riscos em 2026
O impacto mais relevante para o cidadão comum é a pressão inflacionária. Como o Brasil depende majoritariamente do modal rodoviário para transporte de cargas, altas no diesel são repassadas rapidamente aos fretes, elevando custos de alimentos e insumos industriais.
Projeções de mercado: o Boletim Focus mantém o IPCA de 2026 em 3,91%, dentro da meta de 3% ±1,5pp (teto de 4,5%), sem revisões altistas recentes apesar da volatilidade do petróleo.
Selic no horizonte: com inflação controlada nas projeções, o Banco Central segue o ciclo de cortes da Selic, prevista em 12% ao fim do ano; expectativas de mais quedas persistem, condicionadas à evolução da crise geopolítica.
Por outro lado, o governo tenta manter a cautela no discurso. O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, pondera que outros fatores macroeconômicos podem amortecer o golpe. Segundo ele, a valorização do Real frente ao Dólar atua como um “colchão” para os preços internos.
“A pressão inflacionária que gera é relativa, uma vez que a gente também está vivenciando uma apreciação cambial significativa”, afirmou Ceron durante evento do jornal Valor Econômico.
Segundo ainda a sua avaliação, o cenário traçado para a política monetária não deve sofrer alterações imediatas, a menos que o barril se estabilize em níveis muito superiores aos atuais por longo período.
“Me parece que está um cenário traçado e, obviamente, a princípio, não tem um efeito relevante neste primeiro momento se ficar mais ou menos nesse patamar, dada a apreciação cambial que aconteceu”, completou Ceron. Ele ressalvou, contudo, que essa leitura pressupõe uma incerteza “controlável”, e não um cenário de barril consolidado e permanente acima dos 100 dólares.
O futuro da economia brasileira em 2026 repousa hoje sobre um equilíbrio delicado entre a instabilidade do Oriente Médio e a resiliência do Real. Embora o pico de US$ 119 no barril tenha acendido o alerta, a estratégia do governo, vocalizada por Rogério Ceron, aposta na valorização cambial como um “colchão” capaz de segurar o repasse inflacionário e manter o plano de voo da Selic.
Contudo, com a defasagem nos preços dos combustíveis atingindo níveis críticos, o país vive uma contagem regressiva: enquanto o conflito no Estreito de Ormuz não der trégua definitiva, o risco de a conta chegar às bombas e ao prato de comida do trabalhador permanece real, testando o limite da estabilidade econômica nacional.





