O sexo dos filhotes de jacaré não é definido pela genética, mas pelo calor

Nos jacarés, um detalhe quase invisível decide algo enorme: se os filhotes vão nascer machos ou fêmeas; a resposta está no calor do ninho, em um processo que surpreende até quem conhece o animal

A mãe cria o ninho com galhos e outros materiais que possam proporcionar a temperatura ideal para os filhotes

A mãe cria o ninho com galhos e outros materiais que possam proporcionar a temperatura ideal para os filhotes | Wikimedia Commons

Quem olha um ninho de jacaré por fora vê só um monte de folhas, galhos e terra. Mas, por dentro, acontece uma das cenas mais curiosas da natureza: o calor desse abrigo ajuda a definir se o filhote vai nascer macho ou fêmea.

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O fenômeno é conhecido há anos por pesquisadores e ajuda a explicar por que o ninho é tão importante para a reprodução desses répteis. Mais do que proteger os ovos, ele cria o ambiente térmico que orienta uma etapa decisiva da vida do animal.

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Essa relação entre calor e sexo dos filhotes aparece em espécies brasileiras e chama atenção até entre estudiosos do grupo. Os detalhes são de um estudo norte-americano.

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O calor que muda tudo

Em mamíferos, muita gente aprende cedo que o sexo do filhote é definido na fecundação. Nos jacarés, a história pode seguir outro caminho. Em espécies estudadas no Brasil, a temperatura de incubação dos ovos interfere diretamente nesse resultado.

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No jacaré-do-pantanal, estudos da Embrapa Pantanal indicam que ninhos incubados em temperaturas mais baixas, abaixo de 31,5 ºC, produzem fêmeas. Já temperaturas mais altas, acima desse patamar, produzem principalmente machos.

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No jacaré-de-papo-amarelo, reportagem do Terra da Gente com apoio do Projeto Caiman mostrou um padrão semelhante. Entre 29 ºC e 31 ºC, nascem fêmeas. Acima de 33 ºC, nascem machos, o que torna o ninho peça central nessa história.

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O ninho funciona como incubadora

Isso ajuda a derrubar uma ideia comum de que o ovo só precisa ficar escondido. Na prática, o ninho é uma espécie de incubadora natural. Ele concentra material vegetal, terra e umidade em uma combinação que produz e retém calor ao longo da incubação.

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A própria Embrapa explica que a radiação solar e a decomposição da vegetação elevam a temperatura do ninho. Ou seja, folhas e galhos não estão ali por acaso. Eles participam ativamente do ambiente em que o embrião se desenvolve.

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  • O ninho costuma ser feito com galhos, folhas, gravetos e terra.
  • O calor vem da decomposição do material orgânico e da incidência do sol.
  • Pequenas variações térmicas já podem alterar o resultado final da incubação.

Outro dado curioso é que o período mais sensível para essa definição não dura até o último dia do ovo. Em boletim da Embrapa Pantanal sobre o efeito do habitat, os pesquisadores apontam que o período crítico de determinação do sexo pode se estender até os primeiros 40 dias.

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Infográfico: Gazeta de S. Paulo

Esse detalhe faz toda a diferença. Se o ninho receber mais sombra, mais sol ou variar de umidade por causa do ambiente ao redor, o resultado pode mudar. Por isso, o lugar escolhido pela fêmea não é apenas um abrigo: ele influencia o futuro da ninhada.

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O chamado que vem de dentro do ovo

Se o calor do ninho já parece impressionante, o momento do nascimento adiciona outra camada de surpresa. Pouco antes de sair do ovo, os filhotes emitem sons ainda lá dentro. É um aviso de que a eclosão está próxima.

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Em reportagem do Terra da Gente, o biólogo Gabriel Dias, do Projeto Caiman, explicou que a mãe percebe algo como um “chorinho do filho”. A vocalização ajuda a fêmea a identificar que os filhotes estão prontos e que o ninho entrou na fase final.

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Nesse momento, a mãe pode ajudar a quebrar a casca e levar os filhotes para a água. Os recém-nascidos também têm um falso dente no focinho, usado justamente para romper o ovo. É um recurso temporário, mas essencial nos primeiros minutos de vida.

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A incubação, no caso do jacaré-de-papo-amarelo, dura de 65 a 90 dias, segundo o Terra da Gente. Já os materiais da Embrapa mostram que o tempo pode variar conforme espécie, temperatura e condições do habitat, o que reforça o peso do ambiente nesse processo.

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O que isso revela sobre os jacarés

Essa curiosidade também muda a forma como muita gente enxerga os jacarés. Eles não são apenas répteis que botam ovos e vão embora. Em várias espécies, a fêmea fica perto do ninho, protege a área e acompanha os filhotes depois que eles nascem.

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Em outras palavras, o nascimento do jacaré mistura estratégia, cuidado e precisão ambiental. O sexo dos filhotes depende do calor. O nascimento depende do chamado vindo do ovo. E a sobrevivência inicial depende, em boa parte, da atenção da mãe.

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É justamente isso que faz a cena ser tão marcante. Um monte de folhas aparentemente comum guarda ovos, controla temperatura, recebe vocalizações e, no fim, libera filhotes já prontos para seguir a mãe até a água em grupo.

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Quem gosta de curiosidades sobre répteis também costuma se interessar por dúvidas como por que jacaré não come capivara e por que as lagartixas aparecem em casas. No fundo, são perguntas diferentes que revelam a mesma coisa: a natureza costuma ser mais sofisticada do que parece à primeira vista.

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No caso dos jacarés, essa sofisticação aparece logo no começo da vida. Antes mesmo de nascer, o filhote já depende de uma engenharia natural delicada, em que temperatura, ninho, som e proteção materna trabalham juntos em silêncio.

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Perguntas frequentes

Jacaré bota ovos ou dá à luz?

Jacaré bota ovos. Nos crocodilianos, o embrião se desenvolve dentro do ovo, que fica incubado no ninho construído pela fêmea. Por isso, quando muita gente fala em “gestação”, o mais correto, nesse caso, é pensar em incubação dos ovos.

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Quanto tempo demora para nascer um jacaré?

O tempo varia conforme a espécie e as condições do ninho. No jacaré-de-papo-amarelo, a incubação costuma durar de 65 a 90 dias. Temperatura, umidade e características do ambiente podem influenciar esse prazo.

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O que define se o jacaré nasce macho ou fêmea?

Em espécies brasileiras estudadas, a temperatura de incubação é o fator decisivo. Estudos da Embrapa Pantanal mostram que temperaturas mais baixas tendem a gerar fêmeas, enquanto temperaturas mais altas favorecem machos, especialmente no jacaré-do-pantanal.