Uma nova pesquisa do Instituto Badra revelou a relação dos moradores de São Paulo com a mentira e a verdade, e quais são as práticas e dilemas relacionados ao tema. O levantamento mostrou que paulistanos não operam com uma moral rígida, mas com uma ética situacional, marcada por ambiguidades, justificativas e adaptações.
Um dos dados de destaque é que a mentira é algo onipresente e um componente estrutural da vida social. Mais de 70% dos entrevistados acreditam que as pessoas mentem sempre ou frequentemente no dia a dia.
Por outro lado, de forma curiosa, só 38% admitem mentir com frequência – sempre ou quase todos os dias. “Essa dissociação sugere um fenômeno clássico da psicologia social que é a tendência de atribuir ao outro comportamentos moralmente questionáveis, preservando a própria autoimagem”, explicou o analista de dados Maurício Juvenal.
Quando se observa em quais situações a mentira é considerada justificável, as justificativas que mais apareceram foram evitar papéis de evitar conflitos (29,9%) e proteger alguém de sofrimento (26,2%).
Já 85,8% dos entrevistados afirmam já ter mentido para proteger alguém de uma notícia negativa.
Foram ouvidos 1.060 moradores da cidade de São Paulo, em diferentes pontos de fluxo, de diferentes bairros do município, entre os dias 16 e 18 de março. A margem de erro é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%.
Hierarquia das mentiras
O levantamento indica que os indivíduos organizam as mentiras em uma espécie de hierarquia moral. Mentiras voltadas ao benefício próprio são amplamente condenadas, visto que mais de 70% consideram grave ou muito grave mentir para obter vantagem pessoal.
Por outro lado, mentiras com função relacional, como proteger alguém, são relativizadas. No mesmo patamar, mais de 70% dos entrevistados as classificam como pouco graves ou nada graves.
Já apenas 11,7% consideram que omitir uma informação é tão grave quanto mentir diretamente, enquanto a maioria se divide entre relativização e contextualização.
Ao total, 49% dos respondentes admitem já ter omitido informações ao menos algumas vezes.
“Esse dado reforça a ideia de que a moral cotidiana opera por zonas cinzentas. A omissão funciona como uma espécie de ‘mentira aceitável’, um recurso intermediário que permite preservar a imagem de honestidade sem abrir mão da conveniência”, disse Juvenal.
Verdade é valor central, mas não absoluto
Se a mentira é relativizada, a verdade permanece altamente valorizada, ainda que não de forma absoluta.
A grande maioria reconhece que a verdade fortalece a confiança (83,8%) e constrói relações sólidas (89,5%). Ao mesmo tempo, 72,3% afirmam que dizer a verdade pode causar problemas ou prejudicar alguém.
Essa dualidade se expressa também na experiência pessoal. Exatos 73,1% dizem já terem se arrependido, em algum momento, de dizer a verdade.
Quando confrontados com dilemas concretos, os indivíduos afirmam majoritariamente agir com base em princípios (54,2%). No entanto, uma parcela significativa admite considerar o impacto sobre os outros (21,8%) ou o benefício próprio (16,0%).
Corte religioso
Os evangélicos apresentam maior proporção de respostas que consideram a mentira “nunca justificável” (22%) em comparação aos católicos (15%).
Ao mesmo tempo, católicos tendem ligeiramente mais a justificar a mentira para preservar relações. São 19,3% contra 13,1% entre evangélicos.
Esse tipo de diferença sugere que tradições religiosas distintas podem influenciar a forma como se equilibra regra moral e contexto, ainda que nenhuma delas, segundo o analista, elimine a ambiguidade prática observada no conjunto da população.
Entre jovens de 16 a 24 anos, 47,1% afirmam que as pessoas mentem várias vezes ao dia, patamar significativamente acima dos idosos (29,1%) .
Já entre os mais ricos, com renda superior a R$ 8 mil/mês, esse índice cai drasticamente para 19,1%, enquanto nas faixas de menor renda chega a 35%.
Jovens também são os que mais percebem a mentira como frequente (47,1%), mas também apresentam níveis elevados de autorreconhecimento de mentira frequente (cerca de 45% entre sempre mais frequentemente).
Já os idosos percebem menos mentira e também admitem mentir menos (apenas 8,6% dizem mentir sempre).
Entre os mais ricos, a mentira para proteger alguém cai para 13,8%, enquanto nas faixas mais baixas ultrapassa 27%. Já a ideia de que “nunca é justificável” cresce entre os de renda mais alta.
O reconhecimento de que a verdade pode causar problemas é quase consensual (72,3%), mas há variações. Entre pessoas de baixa renda, chega a 80,9%. Já entre população não ocupada, cai para 56,3%.
Nada menos do que 85,8% dos entrevistados dizem que já mentiram para proteger alguém. Ao mesmo tempo, 73,1% disseram ter se arrependido de dizer a verdade, em algum momento. Quando cruzamos isso com idade, os adultos (25–44) apresentam os maiores índices em ambos os casos.





