A rede municipal de ensino de São Paulo atingiu a marca de 24,5 mil alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) matriculados, público que representa 65% dos 37,4 mil estudantes da Educação Especial.
Essa nova realidade — crescimento de 182% nos últimos 15 anos, embora celebrado como avanço, representa também um desafio para as gestões públicas, que precisam garantir suporte adequado e inclusão de verdade.
“Do ponto de vista pedagógico, é percebido a necessidade de discutir e refletir sobre acessibilidade curricular para as práticas de ensino, a necessidade de investir na formação dos professores e nas equipes do serviço de apoio da Educação Especial e gestores escolares para assegurar estratégias que favoreçam a participação de todos os estudantes”, afirma Camila Ramos, coordenadora da Divisão de Educação Especial (DIEE/COPED) da Secretaria Municipal de Educação (SME) de São Paulo.
A capital paulista tem apostado no fortalecimento da oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE), com ampliação dos professores de AEE e Professores de Apoio e Acompanhamento à Inclusão nos Centros de Formação e Acompanhamento à Inclusão (CEFAIs) das diretorias regionais.
Em outra linha, houve um aumento da formação dos demais educadores. Na última quinta-feira (2/4), Dia de Conscientização do Autismo, a secretaria lançou o documento “Transtorno do Espectro Autista: Possibilidades Pedagógicas”, construído de forma colaborativa por profissionais da rede municipal de ensino.
Alunos com TEA necessitam de apoio e adaptações
O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na comunicação e interação social e pela presença de padrões de comportamentos restritos e repetitivos.
Porém, um estudante do espectro pode apresentar características completamente opostas, com diferentes níveis de suporte. Entender a necessidade do aluno com autismo é o primeiro passo para a inclusão.
“Algumas estratégias são criar um ambiente previsível, utilizar uma comunicação clara e direta, recorrer a recursos visuais para reforçar o aprendizado, oferecer tempo adicional para a realização de tarefas e incentivar a socialização”, orienta a psicóloga clínica e escolar Camila Conceição, da Legacy School.
A profissional alerta também para a necessidade de se trabalhar a empatia dos demais colegas de escola e ações para garantir inclusão, além de enfrentamento ao bullying.
“Atividades educativas que abordem o que é o TEA, suas características e como todos podem contribuir para um ambiente mais empático são muito importantes. Valorizar as diferenças é essencial”, reforça.
Neste ponto, a coordenadora da Divisão de Educação Especial do município, Camila Ramos, aponta que a orientação da secretaria é de que a escola “deve se organizar para acolher as necessidades de cada estudante, assegurando acessibilidade, estratégias pedagógicas adequadas e os apoios necessários, definidos a partir de estudos de caso e avaliações pedagógicas.”
Desafio da ampliação da infraestrutura
A rede municipal de São Paulo conta atualmente com 2.912 Auxiliares de Vida Escolar (AVEs) ativos na Unidades Educacionais, que podem atender até seis alunos com TEA para alimentação, locomoção, higiene, comunicação e interação.
No total, a educação especial conta com 9,4 mil profissionais, que incluem ainda Professores de Atendimento Educacional Especializado e Professores de Acompanhamento e Apoio à Inclusão, estagiários, equipes multidisciplinares dos 13 Centros de Formação e Acompanhamento à Inclusão.
“O AEE [atendimento especializado] não substitui o ensino regular, mas atua de forma complementar e articulada. Isso significa que o trabalho desenvolvido nas SRMs ou com os PAEEs deve dialogar diretamente com o que acontece na sala comum, contribuindo para a eliminação de barreiras e para o acesso, participação e aprendizagem das crianças e estudantes”, explica Camila Ramos.
Entre os desafios estruturais está a necessidade de ampliar as Salas de Recursos Multifuncionais (SRM), importante ponto de atendimento aos estudantes dentro das escolas. Atualmente elas estão presentes em apenas 464 unidades da rede.
