Com a chegada do Abril Azul, o debate sobre diagnóstico e tratamento do Transtorno do Espectro Autista ganha força. Entre as dúvidas mais recorrentes está o papel dos medicamentos no acompanhamento de pessoas autistas.
Não existe um remédio específico para o autismo, e isso está relacionado à própria natureza do espectro.
De acordo com Edson Issamu, o TEA não é classificado como doença, mas como uma condição do neurodesenvolvimento, o que muda a forma de abordagem clínica.
“O autismo não é considerado uma doença. É uma situação de neurodiversidade. Por isso, a abordagem não é em cima de tratamento ou prevenção”, afirma.
O que é tratado no autismo
Na prática, o acompanhamento médico se concentra nos sintomas associados ao quadro. O especialista explica que alterações comportamentais, distúrbios do sono e dificuldades de linguagem estão entre as principais manifestações observadas no dia a dia.
“Nós tratamos os sintomas que rodeiam o autismo, como alterações comportamentais, transtornos do sono e da linguagem”, diz.
Segundo ele, o objetivo dessas intervenções é preservar a funcionalidade e a autonomia dentro das possibilidades de cada paciente.
Quando a medicação é indicada
O uso de medicamentos não faz parte da base do tratamento e depende da gravidade dos sintomas. A indicação ocorre quando há prejuízo concreto nas atividades cotidianas, como desempenho escolar, trabalho ou relações sociais.
“O médico pode decidir pela medicação quando essas manifestações começam a atrapalhar a vida da pessoa ou de quem está ao redor”, explica.
Nesses casos, o especialista destaca que a decisão é individualizada e considera o contexto em que o paciente está inserido.
O que os remédios tratam
Entre os quadros mais comuns estão condições associadas, como TDAH, ansiedade e alterações de humor. Essas comorbidades podem exigir o uso de antipsicóticos (como risperidona), psicoestimulantes (como Ritalina e Venvanse) ou reguladores de humor (como ácido valproico e lamotrigina), conforme avaliação médica.
“Esses remédios não conversam com o autismo em si. Eles tratam outras condições que podem estar associadas”, reforça.
O neurologista ressalta que o uso precisa ser monitorado, já que pode haver efeitos sobre outras áreas do comportamento.
Terapia segue como base
Mesmo com a possibilidade de medicação, o tratamento principal permanece centrado em intervenções não farmacológicas.
O modelo considerado padrão ouro envolve terapias de estimulação cognitiva e acompanhamento multidisciplinar.
“O principal são as terapias comportamentais, como o método ABA, junto com uma abordagem multidisciplinar”, afirma.
Esse acompanhamento reúne diferentes profissionais e também inclui o suporte contínuo à família no processo.
Impacto no dia a dia
A introdução de medicamentos ocorre quando as terapias, isoladamente, não conseguem controlar os sintomas. O especialista explica que, nesses casos, a combinação de abordagens pode reduzir prejuízos na rotina.
“Se, mesmo com as terapias, a pessoa ainda apresenta dificuldades que atrapalham a vida diária, pode ser necessário associar medicação”, diz.
Com o controle das comorbidades, há reflexos no desenvolvimento e na adaptação às atividades do cotidiano.
Papel da família
O entendimento da família sobre o tratamento é apontado como parte central do processo. Segundo o neurologista, ainda há resistência ao uso de medicamentos e, ao mesmo tempo, expectativa por soluções imediatas.
“O esclarecimento é fundamental para alinhar o papel da medicação dentro do tratamento”, afirma.
Para ele, o acompanhamento precisa manter o foco nas terapias, com a medicação atuando de forma complementar.
Direitos garantidos por lei no Brasil
No país, pessoas autistas têm direitos assegurados pela Lei Berenice Piana. A legislação reconhece o TEA como deficiência para todos os efeitos legais e garante acesso a políticas públicas específicas.
Na prática, isso inclui atendimento prioritário, inclusão escolar e acesso à rede de saúde. Mesmo com avanços, a efetivação desses direitos ainda enfrenta entraves no dia a dia.
Recentemente, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) estabeleceu que planos de saúde não podem limitar o número de sessões de terapias multidisciplinares para pacientes com TEA, consolidando mais um avanço contra o preconceito.
