O governo ampliou o alcance do Desenrola Brasil ao incluir o Fies na nova rodada do programa. A medida, que será oficialmente anunciada hoje, segunda-feira (4/5), coloca em negociação cerca de R$ 57,9 bilhões em contratos inadimplentes e prevê descontos que podem chegar a 99% para beneficiários do CadÚnico.
A aposta é liberar renda hoje travada por endividamento recorde e reativar consumo e acesso ao crédito.
Fies entra no Desenrola para resgatar contratos ‘perdidos’
A inclusão foi definida no Palácio do Planalto após discussões internas e passa a tratar o endividamento estudantil como fator de pressão sobre a renda. O desenho envolve o Ministério da Educação e a equipe econômica.
O Fies concentra uma das maiores carteiras problemáticas sob gestão pública, com baixa taxa de recuperação, sobretudo em contratos mais antigos. A entrada no programa amplia a escala da política de renegociação.
Quem tem direito ao abatimento máximo de 99% no saldo devedor?
A modelagem prioriza quem está no CadÚnico. Devedores com mais de 360 dias de atraso podem obter abatimento de até 99% do saldo. Fora do cadastro, o desconto para o mesmo nível de inadimplência fica próximo de 77%.
Segundo o Ministério da Fazenda a inadimplência recuou 8,7% entre beneficiários de baixa renda expostos a maiores descontos, sinal de maior adesão e efetividade na recuperação de crédito entre esse público.
Para atrasos acima de 90 dias, o programa prevê redução de 12% no pagamento à vista e parcelamento em até 150 vezes, com exclusão de juros e multas.
O modelo combina incentivo à quitação com prazos mais longos para pagamento. Segundo o Banco Central, o peso dos encargos financeiros é um dos principais fatores que mantêm a inadimplência no crédito educacional.
Inadimplência supera 60% e asfixia o consumo de milhões de jovens
O redesenho responde a um problema crônico do Fies. Mais de 60% dos contratos em fase de pagamento estão inadimplentes, atingindo mais de 1 milhão de estudantes.
O efeito vai além da educação. Dívidas elevadas limitam acesso ao crédito, reduzem mobilidade profissional e comprimem consumo, sobretudo entre jovens recém-formados, segundo levantamento divulgado em 2025 por O Tempo.
Governo prioriza aliviar dívidas agora em vez de cobrar na Justiça
A decisão por descontos elevados se apoia no histórico de baixa recuperação. Em contratos com mais de um ano de atraso, a taxa de não pagamento se aproxima de 100%, segundo dados obtidos pelo Valor Econômico.
Ou seja, esses créditos já têm valor econômico residual nas contas públicas.
A avaliação da equipe econômica é que aceitar perdas agora pode gerar efeito indireto. Ao limpar o nome dos devedores, o governo aposta em reativar o consumo e facilitar a reentrada dessas pessoas no sistema de crédito.
Após a renegociação o desafio está em evitar novas dívidas
Apesar do potencial alívio imediato, o programa levanta dúvidas sobre o impacto nas contas públicas. Especialistas apontam risco de recorrência de renegociações e possível incentivo à inadimplência no futuro.
O efeito sobre consumo tende a ser moderado. O histórico de programas semelhantes indica ganho no curto prazo, com perda de força ao longo do tempo.
O desafio passa a ser evitar que o alívio atual gere um novo ciclo de endividamento nos próximos anos.
