“Chorei muito em uma noite de 2020 ao olhar uma tempestade pela janela e pensar: ‘Será que meu filho está por aí, em algum lugar? Será que já nasceu, que está nessa chuva ou está abrigado?’ Pedi a Deus para o proteger onde quer que ele estivesse”.
O relato acima é da professora Aline Silva, 37 anos, moradora de Jundiaí, no interior de São Paulo, que tinha decidido ao lado do marido David Maia da Silva adotar uma criança quatro anos antes (mesmo com a possibilidade de ser mãe por meios biológicos) e ainda seguia nos trâmites legais.
Poucas semanas depois daquele momento intimamente dramático veio a tão esperada ligação de uma assistente social autorizando a visita para conhecer Abner. Dois meses mais tarde a criança já estava na casa da família. Ele tinha 2 anos e meio.
“Quando a assistente social deu a notícia, saímos correndo para transformar aquela casa de dois adultos angustiados pela expectativa de ter um filho em um lar de família”, lembra, com voz ainda deslumbrada.
Hoje, a criança está com 8 anos e ganhou um irmãozinho, nascido biologicamente em 2021 para a felicidade em dobro de Aline. E hoje ela entende a necessidade do processo de adoção não ser feito da noite para o dia.
“A adoção não é para atender o interesse dos dos pais, mas das crianças que precisam ser alocadas nas famílias”, explica ela.
Em 2026, o Brasil possui 6,1 mil crianças disponíveis para adoção e 33,2 mil famílias oficialmente querendo adotar. Desde 2019 houve 33,2 mil crianças e adolescentes adotados, segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA). Abner foi um deles.
Cotidiano de aprendizagem mútua
Mesmo com todo o amor e a empolgação, Aline explica que o início da adoção é um processo delicado, que precisa de muita maturidade emocional e sensibilidade para entender a outra vida que chegou à casa.
A educadora lembra de sentir aflição pelo filho no início não demonstrar uma conexão mais profunda com ela. Aprendeu que o menino tinha que aprender a confiar da nova família plenamente, que era parte de um processo natural.
“Eu estava naquele desejo e angústia de demonstrar o meu amor, mas ele ainda não tinha aprendido a me amar e a confiar em mim. Demorou uns dois anos para que ele me desse um abraço espontaneamente”, lembra.
“Hoje ele é super afetuoso e ama um carinho, um chamego e um aperto”, desmancha-se.
Poucos meses após a chegada de Abner, Aline engravidou de João Pedro, o que se tornou um momento de felicidade, mas altamente preocupante por ser a época da pandemia da Covid-19.
João Pedro, Aline, David e Abner/Arquivo pessoalEla fez questão de ter um parto natural, mesmo com a ideia inicial de passar por uma cesárea, para poder sair de lá com um dos filhos nos braços e com plena capacidade para dar muita atenção ao mais velho.
‘Nossos dois meninos’
Hoje, ela conta que a adoção foi a melhor decisão que tomou na vida, e que vive uma vida de muita responsabilidade, mas de extrema sensação de completitude, ao lado de David, Abner e João Pedro.
Com o passar dos anos descobriu que Abner tem um quadro leve de autismo e de TDAH. “Ele faz os acompanhamentos, toma os medicamentos, faz as terapias. Amamos a realidade que vivemos com os nossos dois meninos, que são amados intensamente da mesma maneira”, conta.
Ela também se tornou uma grande defensora que toda família, em especial às mulheres, que tiverem o desejo adote uma criança, que não tenha dúvidas para tomar a atitude.
“Toda mulher [que tiver a vontade] precisa adotar o seu filho. Por mais que gestar e parir sejam experiências que biologicamente nos estimulam a cuidar da cria, pela questão hormonal, pelos instintos e tudo mais, a adoção é algo extremamente especial”.
Como adotar uma criança ou adolescente
Qualquer pessoa maior de 18 anos de idade pode adotar, independentemente de sexo, estado civil ou classe social.
O primeiro passo é ir pessoalmente à Vara da Infância e da Juventude, que passarão os documentos necessários para o processo. É possível fazer um pré-cadastro pelo portal cnj.jus.br/sna antes de comparecer à Vara da Infância.
Vara da Infância e da Juventude se trata de fase essencial para adoção de filhos no Brasil/Divulgação/TJACApresentada toda a documentação, p pedido será registrado e receberá uma numeração. A partir daí, é necessário aguardar o cartório ou setor técnico entrar em contato para agendar data para o comparecimento à Vara para uma entrevista inicial.
Após essa fase, o processo será remetido ao Ministério Público para apreciação e, depois, para decisão do juiz, que irá proferir a sentença.
Com a sentença favorável, a família já estará apto para adotar em todo o território nacional.



