A possibilidade de um novo episódio do El Niño em 2026 voltou a acender o alerta de meteorologistas e órgãos de monitoramento climático.
De acordo com previsões divulgadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a probabilidade de formação do fenômeno ultrapassa 60% a partir do trimestre maio-junho-julho e pode superar 90% no segundo semestre do ano.
Segundo o meteorologista e professor da Universidade Anhembi Morumbi, Hiremar Soares, o El Niño ocorre quando os ventos alísios, que são responsáveis por empurrar as águas quentes do Pacífico, enfraquecem, permitindo que o calor se concentre próximo à costa da América do Sul.
“O El Niño é a fase quente de um padrão climático chamado ENOS. Quando os ventos alísios enfraquecem, as águas quentes permanecem por mais tempo na superfície do oceano, alterando a circulação atmosférica global”, explica.
O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e provoca mudanças significativas nos padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta. No Brasil, os efeitos costumam ser opostos entre o Norte e o Sul do Brasil.
Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o El Niño faz parte do fenômeno climático conhecido como ENOS (El Niño-Oscilação Sul), um sistema acoplado entre oceano e atmosfera no Pacífico Equatorial.
Aumento de chuvas
As projeções climáticas indicam que o Sul do Brasil deve registrar aumento significativo das chuvas, enquanto regiões do Norte e Nordeste podem enfrentar períodos mais prolongados de seca e estiagem. Já no Sudeste e Centro-Oeste, a tendência é de temperaturas acima da média.
De acordo com Hiremar Soares, o fenômeno também altera a dinâmica das massas de ar e influencia diretamente eventos extremos.
“O El Niño potencializa o risco de enchentes severas no Sul e estiagens prolongadas na Amazônia. As ondas de calor também se tornam mais frequentes, porque a dinâmica atmosférica dificulta a entrada de massas de ar polar”, afirma.
Impactos do El Niño
O impacto pode atingir diretamente a agricultura brasileira, considerada um dos setores mais sensíveis às mudanças climáticas. Segundo o Inmet, a redução das chuvas em partes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste pode prejudicar lavouras de soja e milho, além de aumentar o risco de perdas em sistemas de sequeiro.
No Sul, o problema tende a ser o excesso de umidade. O aumento das chuvas favorece o encharcamento do solo, dificulta o uso de máquinas agrícolas e amplia a incidência de doenças fúngicas, especialmente em culturas de inverno, como trigo e aveia.
Além da agricultura, o fenômeno também pode trazer impactos para o setor aéreo. Segundo Hiremar, o aumento de tempestades severas no Sul eleva os riscos de turbulência, rajadas de vento e fechamento temporário de aeroportos devido à baixa visibilidade e incidência de raios. O especialista também avalia que o aquecimento global pode intensificar os efeitos do fenômeno climático.
“O aquecimento global não necessariamente cria mais episódios de El Niño, mas pode tornar seus impactos mais severos. Uma atmosfera mais quente aumenta a retenção de umidade, tornando as chuvas mais torrenciais e as secas mais intensas”, destaca.
Apesar do cenário de atenção, o especialista afirma que o Brasil possui capacidade técnica para monitorar o fenômeno. “O desafio não é a previsão, mas a mitigação. O País precisa avançar em infraestrutura urbana, drenagem e políticas de proteção ao produtor rural diante da variabilidade climática”, conclui.



