Uma nova linha de crédito com prazo recorde de 40 anos quer mudar a cara do transporte de cargas no Brasil. Operado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o plano pretende injetar R$ 600 bilhões na construção de ferrovias para tirar o país da dependência das rodovias e aliviar os custos logísticos que hoje encarecem a produção nacional.
O anúncio foi feito durante o evento “Novos Caminhos sobre Trilhos: O Futuro das Ferrovias no Brasil”, realizado na sede da B3, em São Paulo, em parceria entre o Ministério dos Transportes e o BNDES.
A avaliação do governo é que projetos ferroviários exigem aportes elevados e apresentam retorno financeiro de longo prazo, tornando essencial a oferta de crédito compatível com a realidade do setor.
Plano do BNDES: condições inéditas para atrair R$ 600 bilhões
A nova modalidade de financiamento foi desenhada para aumentar a atratividade dos projetos ferroviários junto à iniciativa privada. Entre os principais diferenciais estão o prazo de amortização de até quatro décadas e a expectativa de mobilizar cerca de R$ 600 bilhões em investimentos.
Entre os empreendimentos considerados prioritários estão a Ferrogrão, a EF-118 e o corredor ferroviário bioceânico desenvolvido em parceria com a China. A expectativa do governo é que a expansão da malha ferroviária reduza os custos do transporte de cargas e aumente a competitividade da economia brasileira.
Governo aposta em crédito de longo prazo para atrair investidores
Segundo o Ministério dos Transportes, a iniciativa aproxima o Brasil de modelos adotados em outros países, onde financiamentos extensos são usados para garantir grandes projetos de infraestrutura.
A proposta busca despertar o interesse de investidores nacionais e estrangeiros acostumados a operações com maturação de décadas. Adequar as condições de crédito às características do setor é visto como uma estratégia para destravar investimentos e ampliar a participação do capital privado nas obras previstas pela União.
Ferrogrão e EF-118 lideram a carteira de expansão
A nova linha poderá beneficiar alguns dos principais projetos ferroviários do país. Entre eles está a Ferrogrão, planejada para escoar a produção agrícola do Centro-Oeste até os portos da Região Norte, e a EF-118, conhecida como Anel Ferroviário do Sudeste.
A carteira federal reúne atualmente oito empreendimentos estratégicos. Além desses dois projetos, fazem parte da lista os corredores Fico-Fiol, Malha Oeste, Minas-Rio, Rio Grande, Mercosul e Paraná-Santa Catarina.
A meta é ampliar a integração logística nacional, fortalecer o transporte ferroviário de cargas e reduzir os gargalos que afetam a eficiência da cadeia produtiva.
Corredor bioceânico aproxima Brasil e China
A expansão ferroviária também entrou na agenda diplomática brasileira. Após a assinatura de um memorando de entendimento entre Brasil e China para a realização de estudos conjuntos, em julho de 2025, ganhou força o projeto de um corredor bioceânico ligando o território brasileiro ao Porto de Chancay, no Peru.
A iniciativa envolve a Infra S.A. e o Instituto de Planejamento e Pesquisa da China State Railway Group, considerada a maior empresa ferroviária pública do mundo. O objetivo é criar uma nova rota de acesso ao Oceano Pacífico, encurtando distâncias até mercados asiáticos e ampliando a competitividade das exportações brasileiras.
Os estudos utilizam como base o eixo Fico-Fiol, incluído na carteira de concessões do governo federal.
Os próximos leilões ferroviários
Além dos grandes projetos, o governo pretende avançar com o leilão de 17 terminais de cargas da Ferrovia Norte-Sul, medida considerada estratégica para expandir a capacidade logística do país.
A estimativa é que esses ativos possam atrair aproximadamente R$ 160 bilhões em novos investimentos, fortalecendo o escoamento da produção nacional.
Segundo o secretário nacional de Transporte Ferroviário, Leonardo Ribeiro, a nova carteira foi estruturada para oferecer mais previsibilidade aos investidores.
“Nos últimos anos estruturamos um banco de projetos com empreendimentos que levam em consideração uma matriz de risco inovadora. Torço para que tenhamos um evento histórico e simbólico para o setor de ferrovias”, afirmou.
O plano para diminuir a dependência dos caminhões
Embora tenha dimensão continental e forte vocação para o transporte de cargas, o Brasil ainda concentra grande parte da sua logística nas rodovias. Para o Ministério dos Transportes, ampliar a participação das ferrovias é uma das principais alternativas para reduzir custos, integrar regiões produtoras aos portos e aumentar a eficiência do sistema logístico.
Com financiamentos mais longos e uma carteira robusta de projetos, a estratégia do governo é transformar o setor ferroviário em uma das principais frentes de expansão da infraestrutura brasileira, combinando investimento privado, modernização logística e ganhos de competitividade que podem alcançar diferentes segmentos da economia.
