O ‘Causo’ do Pássaro Compositor

Esta é uma homenagem ao saudoso contador de 'causos' Rolando Boldrin

Dito Pissuí ganhou esse apelido porque, toda vez que era procurado por alguma pessoa interessada na compra de um pássaro gorjeador, dizia invariavelmente: "Eu pissuí um passarinho que canta como uma orquestra"

Dito Pissuí ganhou esse apelido porque, toda vez que era procurado por alguma pessoa interessada na compra de um pássaro gorjeador, dizia invariavelmente: "Eu pissuí um passarinho que canta como uma orquestra" | Gravura: Domínio Público

Nos velhos e saudosos tempos quando a cidade de Porto Feliz era quase uma vila com poucos habitantes, por aqui viveu Dito Pissuí – um cidadão humilde e trabalhador -, cujo lazer, depois da jornada diária de trabalho, era caçar, comprar e vender pássaros silvestres.

Dito Pissuí vivia em um bairro afastado da região central, e o vasto quintal da sua residência fazia fundo com uma mata fechada que terminava nas margens lendárias do velho Rio Tietê.  A região bucólica onde residia propiciava-lhe o suave encanto de ouvir desde os primeiros raios de sol até ao cair da tarde, o gorjeio melodioso da passarada, situação que fez de Dito Pissuí o maior conhecedor de pássaros da cidade e da região.

Dito Pissuí ganhou esse apelido porque, toda vez que era procurado por alguma pessoa interessada na compra de um pássaro gorjeador, dizia invariavelmente: “Eu pissuí um passarinho que canta como uma orquestra”.

Essa frase tinha o inconfundível condão de alavancar o interesse do comprador e, obviamente, alcançar bom preço na negociação.  “Eu Pissuí” era o jeitão característico com que o velho Dito queria dizer “Eu possuí”, ou seja, era a maneira como se dirigia ao comprador interessado, para afirmar que havia adquirido ou caçado um passarinho trinador que efetivamente encantava com o seu belo gorjeio.

Certa tarde, quando Dito Pissuí tratava dos pássaros e limpava suas gaiolas, chegou em sua casa um cidadão interessado na compra do melhor pássaro gorjeador entre todos aqueles que Dito Pissuí pudesse disponibilizar para venda. Embalado com a possibilidade de fazer um bom negócio, Dito Pissuí colocou na frente do comprador dois canários muito bonitos.  Um deles, que ficava à esquerda do interessado, trinava maravilhosamente, enquanto o da direita apenas ensaiava pequenos trilos saltitando de um lado para outro.

Muito esperto o comprador perguntou o preço de cada um dos pássaros, mas como ornitólogo que era, demonstrou preferência por aquele que menos gorjeava.  Sua intenção era pagar preço menor, certo de que, por ser ainda um filhote e desde que bem treinado, esse pássaro seria de grande valor no futuro.

Sábio e bom negociante Dito Pissuí respondeu que o passarinho da esquerda custava duzentos contos de réis, mas o da direita só venderia por seiscentos contos de réis. Intrigado com o fato o comprador quis saber o motivo de tamanha diferença no preço!!! Astuto como ele só o velho Dito Pissuí justificou: “É que o pássaro à sua esquerda apenas canta, mas o da sua direita é o compositor”.

Esta é uma homenagem ao saudoso contador de “causos” Rolando Boldrin! Salve Terra das Monções / Tua gente varonil / Honrará tuas tradições / E a grandeza do Brasil.