Família reunida, ceia, animação. A noite de 31 de dezembro de 2016 tinha tudo para ser mais uma celebração alegre de réveillon. Mas, para uma família de Campinas, no interior de São Paulo, o evento terminou em um crime bárbaro, que ficou conhecido como chacina de Campinas.
Naquela noite, a técnica em contabilidade, Isamara Filier, então com 41 anos, foi com o filho de 8 para a casa de uma prima para comemorar a chegada de 2017. Na residência, um total de 18 pessoas participavam da reunião.
Perto da meia-noite, um homem com uma arma e dez bombas de fabricação caseira estacionou o carro, pulou o muro do imóvel e assassinou 12 das 18 pessoas presentes. Era o ex-marido de Isamara, o técnico de laboratório, Sidnei Ramis de Araujo, de 46 anos.
Denúncias recorrentes
Segundo reportagens da época, Isamara já havia registrado ao menos cinco boletins de ocorrência contra o ex-marido, por crimes de ameaça e agressão. As denúncias foram feitas entre 2005 e 2015.
Além dos boletins citados, Isamara também teria denunciado o homem por abuso sexual contra o filho, quando a criança tinha apenas 3 anos. A queixa não foi acatada pela Justiça, mas foi determinante para que o genitor só pudesse conviver com o menino mediante restrições.
A condenação teria sido a desculpa usada pelo assassino para cometer o crime. Em carta, ele teria dito o seguinte: “Morto também já estou, porque não posso ficar contigo, ver você crescer, desfrutar a vida contigo por causa de um sistema feminista e umas loucas.”
O crime
O técnico de laboratório planejou o crime com antecedência. Ele tinha a intenção de praticar o ato no Natal, quando mais pessoas da família estariam reunidas. Mas, algo deu errado.
Na noite do réveillon de 2016 para 2017, Araujo invadiu a casa da prima de Isamara e abriu fogo contra os presentes. Onze pessoas morreram na hora, incluindo a técnica em contabilidade e o filho do ex-casal. Quatro foram atingidas e socorridas, mas uma não resistiu.
De acordo com dois adolescentes que estavam na casa e conseguiram se esconder, antes de atirar em Isamara, o homem chegou a dizer: “Vou te matar, você tirou o meu filho”.
Os sobreviventes também contaram que o menino, filho do ex-casal, foi o último a ser alvejado. Ele chegou a perguntar ao assassino por que o homem matou sua mãe. A pergunta não teve resposta e foi seguida de um tiro. O assassino se matou logo em seguida.
Feminicídio
Na época, muitos jornais divulgaram uma carta deixada pelo assassino, ou trechos dela. Contudo, a divulgação do conteúdo, cheio de frases misóginas e machistas, foi amplamente criticada por especialistas em segurança, estudiosos e pela sociedade civil.
A diretora de conteúdo da Agência Patrícia Galvão na época, Marisa Sanematsu, viu, inclusive, o risco de um setor da população acolher o discurso de ódio disseminado no ato.
A ex-ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Nilceia Freire, que também foi contra a divulgação da carta e seus trechos, chamou atenção para as consequências negativas das publicações.
“Esse tipo de declaração presente na carta, de divulgação, acaba por estimular atitudes, ao contrário do que se quer, que é prevenir”, disse Nilceia, em entrevista ao Nexo.
Cerca de um ano depois, a polícia civil de Campinas alterou a tipificação penal de nove dos 12 assassinatos para feminicídio. Antes disso, todas as mortes estavam tipificadas como homicídio simples, mesmo no caso das nove mulheres.
