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Após 26 anos, despoluição do Tietê fica na promessa

Quase três décadas e R$ 8,8 bilhões depois, o rio-símbolo do Estado continua sem vida na Grande São Paulo Da Reportagem De São Paulo

dothCom Consultoria Digital

Publicado em 19/10/2018 às 20:30

Atualizado em 09/04/2021 às 15:40

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O rio Tietê é um símbolo do estado de São Paulo e o mais importante da capital paulista. Porém, vive com problemas de poluição desde a década de 1960. A primeira vez que se falou em limpar seu curso d’água e encostas foi em 1992, quando o governador Luiz Antônio Fleury Filho lançou o Projeto Tietê, com financiamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O projeto passou a ser administrado pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo). De lá para cá, se passaram 26 anos e foram gastos R$ 8,8 bilhões, e o rio permanece morto na região metropolitana de São Paulo.

Fleury fez um prognóstico ousado: “Em 1995 beberei um copo d’água do Tietê” – o que, como se sabe, não se concretizou. O seu sucessor, Mário Covas, manteve o projeto. Ao morrer, em 2001, seu vice, Geraldo Alckmin, tomou para si a missão de devolver a vida ao Tietê.

Entre as promessas do governador tucano, Alckmin disse em 2003 que iria entregar o Tietê limpo e navegável até 2004; e, em 2011, anunciou que em 2015 o rio no trecho que passa pela Capital não teria mais odor ruim e teria algumas espécies de peixe. Nada disso aconteceu, mas houve alguns avanços. Quando o Projeto Tietê começou, a poluição se estendia por 530 quilômetros dentro do estado. Hoje, ele é considerado morto em 122 quilômetros.

A maior parte do esgoto doméstico da região metropolitana vai para cinco estações de tratamento. Há, porém, os dejetos que seguem o caminho de córregos e caem diretamente no Tietê.

De acordo com a Sabesp, no ano passado 87% dos dejetos da Grande São Paulo foram coletados e 59%, tratados. Em 1992, quando iniciou o Projeto Tietê, 17% do total do esgoto da Grande São Paulo era tratado.

Em 2014, a despoluição teve seu melhor momento, quando a extensão morta passou a ser de 71 quilômetros. A crise de abastecimento de água, porém, fez a Sabesp diminuir as atividades no setor. E o trabalho voltou para trás.

Lado bom

De acordo com Gustavo Veronesi, da S.O.S. Mata Atlântica, apesar da morosidade, há motivos para o Projeto Tietê ser celebrado. Principalmente por não ter sido encerrado por nenhuma das gestões estaduais. Hoje, o projeto está na quarta fase. “Apesar da demora, é algo positivo que permaneça em frente”, afirma.

Segundo ele, um outro ponto positivo é que as indústrias deixaram de despejar uma enorme quantidade de dejetos sem tratamento desde 1992, graças a acordos com o poder público. Um empecilho para o sucesso, porém, conta Veronesi, é a dificuldade de comunicação entre as diferentes prefeituras da Grande São Paulo por questões políticas. A região metropolitana é uma área com 39 municípios e 21 milhões de pessoas – ou 10% da população brasileira. O saneamento de água é de responsabilidade dos municípios.

“É fundamental haver um sentimento cívico dos prefeitos, esquecendo questões partidárias, para se unirem com o objetivo de limpar o rio. Os prefeitos precisam procurar caminhos unificados que beneficiem todas as cidades da região metropolitana”, afirma.

Neste ano, a Sabesp anunciou a construção de um supertúnel de 7,5 quilômetros para receber os dejetos de duas milhões de pessoas da zona sul até o centro da capital. A obra está prevista para ser entregue em 2020. Além das obras da Sabesp, Veronesi também defende a adoção do que chama de “soluções verdes” para o tratamento do esgoto em pequenas comunidades, em contribuição às “soluções cinzas” feitas pelo governo. “É possível usar essas soluções verdes em pequenas comunidades, ou seja, sistemas alternativos e relacionados com a natureza para o tratamento do esgoto. Modelos não faltam”, diz.

Outro ponto para ser levado em conta, conta Veronesi, é em relação à ocupação de pessoas em áreas de mananciais, de proteção ambiental. Quase dois milhões de pessoas vivem às margens das principais represas que abastecem a Grande São Paulo. Há, porém, de acordo com ele, um problema maior: o déficit habitacional em várias regiões do Brasil, o que força que pessoas vivam em condições insalubres sobre mananciais.

“Habitação é um problema nacional. Como uma pessoa pode pensar em uma melhor saneamento se não tem nem uma casa? Há moradias nas franjas da cidade, em áreas insalubres, que não deveriam ser ocupadas, mas são. E também há populações mais ricas que constroem suas casas de veraneio à beira de represas”.

A poluição do Tietê também causa consequências além da região metropolitana. Em Salto, a 104 quilômetros da Capital, é comum que espuma encubra trechos do rio. De acordo com análises feitas em 2017, a espuma é tóxica e contém, além de bactérias, uma alta concentração de metais pesados.

Por fim, Veronesi também alerta sobre a importância de São Paulo ter uma relação mais saudável com os 1.700 rios, córregos, riachos e correlatos da cidade. A maioria está canalizada. “A gente só descobre que existem quando chove, e aí reclamamos. Mas não foi o rio que invadiu a rua. A rua que invadiu o rio”.

 

Rio Tietê cred Thiago Neme 58 3Encosta do rio próxima à ponte do Limão, na zona norte da Capital, apresenta grande quantidade de lixo, o que atrai ratos e urubus

(Foto: Thiago Neme/Gazeta de S.Paulo)

*Por Bruno Hoffmann

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