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Raquel dos Santos Pereira dirige uma máquina selecionadora a cerca de 12 metros de altura
Raquel dos Santos Pereira dirige uma máquina selecionadora a cerca de 12 metros de altura
Foto: Divulgação

Elas se destacam na 'profissão deles'

Conheça a história inspiradora de três mulheres que quebraram paradigmas de gênero nas profissões que exercem

"Será que vai dar certo uma mulher urologista?" Essa foi a pergunta que a médica Isabel Feitosa, 45 anos, ouviu do marido ao desistir de se especializar em cirurgia pediátrica para se dedicar à urologia. A pergunta dele fez sentido, pois na época, no início do milênio, apenas 31 mulheres exerciam a profissão.

Mesmo que as mulheres estejam conquistando mais respeito nas ruas, representatividade política e cada vez mais conquistem espaços antes dominados por homens, os papéis de gênero ainda influenciam as escolhas profissionais.

Dessa forma, para mostrar que lugar de mulher é onde ela quiser, neste 8 de Março, o Dia Internacional da Mulher, a Gazeta ouviu três mulheres que quebraram os paradigmas de gênero nas profissões que exercem.

Uma em 100

A médica Isabel Feitosa, de 45 anos, foi a 5ª a terminar a residência em urologia na Santa Casa de São Paulo, no ano de 2002. Depois dela, somente agora, em 2020, a sexta médica finalizou a residência na área na instituição.

Isabel, que atende cerca de 200 pacientes ao mês em um consultório na zona sul de São Paulo e em plantões na própria Santa Casa, faz parte de um grupo seleto de apenas 138 médicas urologistas em todo o Brasil, incluindo 30 residentes. Do total, somente 52, a exemplo de Isabel, possuem o título de especialista em urologia.

Macaque in the trees
Isabel Feitosa faz parte de um grupo seleto de apenas 138 médicas urologistas em todo o Brasil

Para a médica, o preconceito e o medo do assédio são alguns dos fatores que explicam o baixo índice de mulheres na profissão. “Muitas garotas me procuram e questionam o motivo de eu ter escolhido a urologia. O que percebo é que elas têm muito medo da aceitação e pensam que vão sofrer muitas situações de assédio, o que, na verdade, não acontece.”

Isabel pensava em se especializar em cirurgia pediátrica, quando o pai foi acometido por um câncer de próstata. A partir daí, surgiu o interesse dela pela área. Piadas machistas no início da carreira, alguns pacientes engraçadinhos e a dúvida de alguns colegas foram algumas das situações que a urologista teve que enfrentar, mas que se tornaram cada vez mais escassas com o passar dos anos.

No comando do volante

"Quando eu comecei a trabalhar com a Kelly, eu me espantei, pois nunca tinha visto uma mulher dirigindo um caminhão. Eu achei que algo pudesse dar errado, porque pensava que as mulheres não tinham experiência nisso. Mas, depois, com o tempo, vi que ela é muito competente e dirige bem como qualquer homem", relata Peterson da Silva.

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Na profissão há 11 anos, Kelly começou a dirigir caminhão por necessidade

Peterson é um dos três coletores da equipe da motorista de caminhão de coleta, Kelly de Souza Nascimento, de 53 anos, a única mulher entre os 352 motoristas da Loga (Logística Ambiental de São Paulo), uma das empresas responsáveis pela coleta de lixo da capital paulista. Na profissão há 11 anos, dez deles trabalhando à noite, Kelly começou a dirigir caminhão por necessidade. "Eu trabalhava em uma empresa de telefonia. Estava com muitas dívidas no cartão e resolvi pedir demissão para pegar o dinheiro e pagar esses débitos. Depois, as coisas foram apertando e eu resolvi mudar a categoria da minha carta para B. Peguei os últimos R$ 500 que haviam sobrado da rescisão e fiz um curso de motorista para transporte coletivo, mas confesso que não acreditava que isso daria certo", conta. Ainda no curso, Kelly conheceu uma moça que trabalhava como motorista de caminhão, para quem ela deu seu o currículo. "Você vai provando por A mais B que é capaz", afirma. Ainda assim, ela conta, nas ruas, quando o caminhão está parado e chega um homem para pedir informação, quase sempre ela escuta: "O irmão, opa desculpa". "Eles sempre esperam ver um homem", finaliza.

Nas alturas

“Nossa, é uma mulher lá no alto!”. Essa é uma das frases que Raquel dos Santos Pereira, de 29 anos, mais ouve ao exercer sua profissão. Ela é operadora de inventário na FM Logistic do Brasil, o que significa dirigir uma máquina selecionadora, a cerca de 12 metros de altura.

“Meu horário de trabalho é de segunda a sexta, das 8h às 17h48. Ao chegar na empresa, vou até o inventário, pego a tarefa do dia e sigo para a máquina selecionadora. Faço todo o procedimento segurança. Dirijo o equipamento até o local onde será feita a contagem das locações do dia e subo até 12 metros de altura, verificando os produtos e as datas de validade, isso tanto na área seca como na parte refrigerada. Diariamente, percorro em torno de 15 km dirigindo a máquina no armazém e faço a contagem de 80 itens do estoque”, conta Raquel.

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Natural de São Paulo, Raquel está na empresa há 10 anos, mas somente há quatro exerce a função atual

Natural de São Paulo, Raquel está na empresa há 10 anos, mas somente há quatro exerce a função atual. “Quando comecei a trabalhar na empresa era separadora de produtos. Eu ficava observando os meninos dirigindo a selecionadora e falava pra mim mesma ‘um dia eu estarei ali’. Quando surgiu a oportunidade, fiz todo o processo interno de recrutamento e passei. Na época, oito pessoas concorreram, a maioria homem, e eu conquistei a vaga”, diz orgulhosa.

Na operação de São Paulo da FM Logistic trabalham cerca de 400 colaboradores, porém somente duas mulheres exercem a função de operadora de inventário. Na empresa, a profissional diz nunca ter sofrido preconceito, porém já ouviu de muitos conhecidos que era doida por manusear uma máquina pesada e tão diferente. “Eu sempre fui de peitar esse tipo de comentário e ir atrás dos meus objetivos. E é gratificante quando conquistamos algo que sempre desejamos.”

Desigualdade

20% é o que as mulheres ganham a menos do que os homens mesmo estudando um ano a mais do que eles em média.

34% dos negócios são liderados por elas, mas apenas:

3,9 de cada 10 empreendedoras viram ‘donas de negócios’, enquanto entre os homens a proporção é de 6,5.*

*Fonte: UFFL, IBGE, e Sebrae

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