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Economia

Críticas de Lula ao BC elevam expectativa de inflação e pressionam juros

O boletim Focus mostrou nesta segunda-feira que a projeção para o IPCA deste ano saltou para 5,78%, ante 5,74% na semana anterior

NATHALIA GARCIA - Folhapress

Publicado em 06/02/2023 às 11:18

Atualizado em 06/02/2023 às 11:19

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A autonomia formal do BC já foi alvo de Lula em outras ocasiões / Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os ruídos gerados pelas críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Banco Central e à condução da política monetária têm aprofundado a piora das expectativas de inflação a cada semana e pressionado os juros, surtindo efeito reverso ao pretendido pelo governo em seu discurso.

O boletim Focus, que capta a percepção do mercado financeiro para indicadores econômicos, mostrou nesta segunda-feira (6) que a projeção para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) para este ano saltou para 5,78%, ante 5,74% na semana anterior. É a oitava semana seguida que a pesquisa traz uma revisão para cima do índice de inflação.

Para 2024, período de maior relevância para a atuação do BC hoje, a expectativa também subiu, passando de 3,9% para 3,93% - terceira elevação consecutiva. Para a taxa básica de juros (Selic), a estimativa se manteve estável em 12,5% em 2023 e foi a 9,75% ao final do próximo ano, contra 9,5% na semana anterior.

De acordo com estimativa feita por Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e presidente do conselho da Jive Investments, as falas de Lula podem resultar em um custo adicional na administração da dívida pública ao redor de R$ 100 bilhões neste ano, caso a curva de juros continue acima do nível observado antes das declarações.

"É dar um tiro no pé", resume ele sobre as declarações do presidente. De acordo com o economista, o confronto do presidente com o BC é a principal razão de as expectativas de longo prazo estarem subindo. A questão fiscal entraria em segundo plano, com o receio dos economistas de que o Brasil não tenha uma política fiscal sustentável.

"O presidente Lula tem sido muito vocal contra a política monetária, contra o BC, até pondo uma certa dúvida se ele concorda com a independência da instituição. Isso coloca em risco a capacidade de o BC fazer o trabalho dele", diz.

Na quinta-feira (2), um dia depois de o BC subir o tom dos alertas sobre riscos fiscais, Lula chamou o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, de "esse cidadão" e disse que pode rever a autonomia da autoridade monetária - aprovada em lei em fevereiro de 2021.

"Quero saber do que serviu a independência. Eu vou esperar esse cidadão [Roberto Campos Neto] terminar o mandato dele para a gente fazer uma avaliação do que significou o BC independente", disse Lula em entrevista à RedeTV!.

A autonomia formal do BC já foi alvo de Lula em outras ocasiões. Semanas antes, o presidente afirmou que duvidava que Campos Neto fosse mais independente do que Henrique Meirelles em seus mandatos anteriores, entre 2003 e 2010.

Presidente do BC nos governos anteriores de Lula e ministro da Fazenda na gestão Temer, Meirelles apoiou o projeto de autonomia formal do BC e defende a sua manutenção.

"Avançamos ao ponto da autonomia operacional e depois conquistamos a independência legal, não há razão nenhuma para voltar atrás, porque só vai criar prejuízos a todos e ao país", afirma. "Retirar isso é algo que vai deteriorar completamente as expectativas."

Para José Júlio Senna, ex-diretor do BC e chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre-FGV, Lula deveria "agradecer e não se revoltar" com a autonomia da instituição. Na visão dele, se não fosse isso, a instituição poderia ter sido utilizada politicamente pelo governo Jair Bolsonaro (PL) na disputa eleitoral contra o petista.

"Se não tivesse a independência, o governo anterior teria avançado em cima do BC e forçado uma política monetária mais frouxa que o ajudasse na eleição. Tenho zero dúvida de que isso ia acontecer", afirma.

A presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, tem dado eco ao discurso de Lula nas redes sociais. "Lula tem razão ao abrir o debate sobre as decisões do BC. Ter mandato não significa não ter responsabilidade com um país que precisa crescer urgente. Quem vai investir em produção e serviços quando pode faturar horrores com os juros nas alturas?", escreveu.

Um dia antes, ela já havia criticado o alto patamar de juros do país. Integrantes do governo avaliam que o juro mais elevado tem um custo superior ao orçamento do programa Bolsa Família, previsto hoje em R$ 175 bilhões.

Lula reiterou na última semana suas críticas à atual meta de inflação, mais baixa do que em suas gestões anteriores, o que deixou o mercado em alerta sobre a possibilidade de revisão do objetivo a ser perseguido pelo BC em sua política de juros.

"Por que não faz 4,5%, como fizemos [nos mandatos anteriores]? A economia brasileira precisa voltar a crescer", afirmou Lula em entrevista à GloboNews.

O discurso do petista, contudo, ainda não mobilizou um debate técnico no governo para uma mudança na meta estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), como mostrou a Folha.

A politização dos juros chegou até o presidente do TCU (Tribunal de Contas da União), que reagiu em defesa do BC. "Não é possível [o governo federal] falar em endividamento e esperar que autoridade monetária fique parada, de braços cruzados", afirmou Bruno Dantas.

Para Senna, é hora de Lula trabalhar "menos com a retórica, e mais com as evidências".

"Resolver problema do juro real alto atacando o BC, atacando a independência da instituição e pensando em elevar metas de inflação definitivamente são movimentos contraproducentes. Não só não ajudam como atrapalham", afirma.

O ex-diretor do BC pondera que o novo governo tem pressa em recuperar o crescimento econômico e mostrar que conduz "muito bem" a economia, dado o ambiente político polarizado. Mas alerta que não há solução de curto prazo.

"Não há alternativa à queda dos juros reais a não ser por meio de ajustes robustos nas contas públicas, encampando o lado da despesa e acompanhado de um novo arcabouço fiscal de médio e longo prazo", diz.

Apesar de ter mantido a taxa básica (Selic) estável em 13,75% ao ano, o BC sinalizou que os juros podem demorar mais a cair dada a conjuntura "particularmente incerta no âmbito fiscal e com expectativas de inflação se distanciando da meta em horizontes mais longos", que eleva o custo da desinflação para atingir os alvos estabelecidos pelo CMN.

Os recados dados pela autoridade monetária provocaram uma onda de revisões nas projeções dos agentes do mercado financeiro. Além de gerar uma disparada nas taxas de curto prazo, os agentes passaram a exigir prêmio ainda mais elevado pelos juros de longo prazo com a piora na percepção de risco.

Os economistas do Citi, diante da deterioração das expectativas, passaram a estimar inflação e juros mais elevados. A previsão para a Selic saltou de 10,5% para 12,25% ao término de 2023. "No geral, as expectativas consensuais de inflação estão sugerindo que os analistas já estão trabalhando com uma meta de inflação, de fato, mais alta", escreveram em relatório os economistas Leonardo Porto, Paulo Lopes e Thais Ortega.

No cenário de referência do Copom, que parte da premissa do Focus de corte de juros no segundo semestre, as projeções de inflação subiram para 5,6% para este ano. Para 2024, o colegiado elevou a previsão para 3,4%.

O BC incluiu um cenário alternativo, no qual a Selic é mantida constante ao longo de seu período de atuação, com projeções de inflação de 5,5% para este ano e 2,8% para 2024.

A questão fiscal é vista com desconfiança pelos economistas, que levam em conta a incerteza quanto ao desenho da nova regra que substituirá o teto de gastos -mecanismo que limita o crescimento das despesas públicas à inflação registrada no ano anterior.

A aprovação da PEC (proposta de emenda à Constituição) que autorizou a ampliação de despesas neste ano também é apontada pelo mercado como uma sinalização de que o governo pode estar predisposto a uma política fiscal mais expansionista.

"A PEC está sendo discutida há um tempão, não é uma coisa exatamente nova, mas ela teve que se materializar. Tem uma certa inércia na atualização das expectativas", diz Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, que vê a questão fiscal como principal elemento para a deterioração das expectativas somada aos ruídos de comunicação do governo.

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