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Quase 80% das mulheres já sofreram violência ou assédio no trabalho

Entre as situações vividas pelas brasileiras no trabalho, muitas relataram que já ouviram gritos, xingamentos, elogios constrangedores e assédio

ALINE

Publicado em 16/12/2020 às 15:04

Atualizado em 05/05/2021 às 16:28

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Sentimentos mais comuns nas mulheres vítimas de assédio são raiva, nojo, impotência, vergonha, medo e humilhação / /Photographee.eu

Mesmo sendo algo que ocorre com frequência, o assédio no ambiente de trabalho só começou a ser debatido pela sociedade recentemente. De acordo com pesquisa divulgada pelo Instituto Patrícia Galvão, 76% das mulheres já sofreram algum tipo de violência, assédio ou constrangimento no ambiente profissional.

Entre as situações vividas pelas brasileiras no trabalho, muitas relataram que já ouviram gritos, xingamentos, discriminação em razão da aparência, raça, idade, orientação sexual, controle excessivo, críticas constantes, elogios constrangedores e sofreram agressão física, assédio e estupro.

Após passarem por este tipo de situação, os sentimentos mais comuns que as mulheres sentem são raiva, nojo, impotência, vergonha, medo e humilhação. Foi o que sentiu Maria (nome fictício), ao ser assediada durante um teste para uma companhia de dança. ”Fui fazer um teste com o dono da companhia de dança. Ele passou a coreografia que eu tinha que fazer, eu fiz, e depois ele falou que dançava o casal. Aí ele fez a coreografia junto comigo e passou a mão em mim dos seios até as minhas partes íntimas. Quando terminou a música ele falou que qualquer coisa entrava em contato. Lembro que sai de lá chorando horrores, eu nunca falei para ninguém, porque eu senti vergonha, me senti totalmente invadida, suja e só de lembrar a sensação é horrível”, conta à reportagem.

Já a analista de RH, Bruna Freitas, 34 anos, sofreu assédio no seu primeiro emprego. “Eu era tão inexperiente que na época nem percebi que era assédio, sabe? Tinha um senhor, funcionário bem antigo, que aproveitava quando eu ia no arquivo buscar pasta e chegou a me encoxar na parede algumas vezes, só que nunca reclamei e nem contei para ninguém por que não sabia exatamente como agir. Acho que era uma mistura de medo de perder o emprego, de enfrentar o conflito dentro da empresa, e a vergonha de contar que isso estava acontecendo”, relata.

Assim como Bruna, a farmacêutica Talita Daniely Boutros Moussa, 32 anos, também não denunciou um caso de assédio moral que sofreu por medo de retaliação dentro da empresa. “Há uns 2 anos tive que escutar do gerente do lugar que eu trabalho no meio de uma reunião: O que ela tá falando? O que uma mulher sabe sobre esse assunto? Fiquei muito brava e não consegui falar nada. Acabei não reportando com receio de retaliação”, disse.

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Medo de perder o emprego

O medo de perder o emprego ou arriscar a carreira é um dos motivos que desmotiva as vítimas a não denunciarem casos de assédio, como explica Nana Lima, diretora da Think Eva + Think Olga, organização que produziu a pesquisa “Trabalho sem assédio”. “Atualmente, a gente está com a menor participação das mulheres no mercado de trabalho. Então, assim, se você já está em uma vulnerabilidade social, econômica, tão delicada como a gente está agora, essa motivação para denunciar é ainda menor. Muitas vezes esse trabalho da mulher é a única renda da casa. Então ela acaba aceitando para manter aquele trabalho”.

Como empresas devem agir

Além do medo de perder o emprego, a desconfiança em torno das mulheres e a crença geral de que os agressores não serão punidos desencoraja a maior parte das vítimas a seguir em frente com denúncias ou reclamações formais. Para Nana, as empresas falham quando não são transparentes em casos que envolvem assédio. A diretora ressalta que é necessário deixar claro que a política é de tolerância zero para este tipo de comportamento, além de outras medidas, para que o assédio seja combatido no ambiente corporativo.

“Acho que tem que ser uma força-tarefa geral. Não é apenas um trabalho de acolhimento das vítimas ou um trabalho só com o agressor. As lideranças têm que ser muito capacitadas para lidar com isso, para entender quando alguém está sofrendo assédio, para entender se eles estão cometendo assédio. Ter esta capacitação, sensibilização, para que isso seja um comportamento que estejam conscientes e que não sejam perpetuados. As empresas precisam criar esse fluxo para receber essa denúncia, para apurar, e para punir ou fazer algo a respeito”, completa.

O que é assédio sexual e moral

O assédio sexual, segundo a lei, consiste em constranger alguém para obter favorecimento sexual usando a condição de hierarquia como coerção. O assédio pode ser algo físico, como tentativa de beijo ou toque, ou comentários constrangedores em público ou privado, além de qualquer gesto que viole a liberdade sexual. Já o assédio moral, pode ser a conduta realizada de modo intencional, praticado por colegas de diferentes níveis hierárquicos, e que expõe o trabalhador a situações humilhantes, ofendendo a sua dignidade.

Denúncias de assédio sexual crescem 64%

Apesar do receio das vítimas, o número de denúncias de assédio sexual no ambiente profissional aumentou 64,7% em cinco anos, segundo dados do Ministério Público do Trabalho. No ano de 2015, foram 289 relatos de abusos do tipo contra 476 em 2019.

Além do Ministério Público do Trabalho, a vítima de assédio também pode procurar os CCMs (Centros de Cidadania da Mulher), onde poderá contar com serviço de assistência social e instruções na realização de boletins de ocorrência.

Para que haja continuidade do processo de denúncia no ambiente jurídico, a especialista em Teoria da Prova Do Processo Penal, Ivana David, orienta que é importante que a vítima reúna provas. Segundo a especialista, “a mulher pode apresentar bilhetes, e-mails, mensagens de WhatsApp e outras redes sociais, e se possível conversar com colegas que possam testemunhar”.

O crime de assédio sexual está previsto no Código Penal (art. 216-A, CP) com pena de 1 a 2 anos. 

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