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CRISE ECONÔMICA Nem tradição tornam cachaça imune

Amagia feita ao acaso por escravos negros que transformaram melado em néctar aconteceu há quase 500 anos próximo ao Riacho dos Erasmos, nos contrafortes do maciço de Santa Terezinha, na Ilha de São Vicente. E essa alquimia ajudou a moldar a identidade de uma civilização genuinamente mestiça, legitimamente brasileira. De lá para cá, a cachaça caiu nas graças do povo, a celebrar a vida, a curar as dores de amores perdidos, a se despedir de entes queridos. Assim, os alambiques se multiplicaram de Norte a Sul, a caipirinha virou um dos drinques mais aclamados do mundo e o primeiro destilado feito nas Américas emprega mais de 600 mil trabalhadores. Pois bem, nem todo esse arsenal de tradições, sabores e aromas tornou a cachaça imune à crise econômica que assola o País. Segundo o Anuário da Cachaça, o número de alambiques diminuiu 22,3% em apenas um ano.

O documento divulgado agora pelo Ministério da Agricultura revela que em 2018 eram 1.397 os produtores de cachaça e aguardente no País, contra para apenas 1.086 em 2019. Esses dados podem indicar tanto o fim de pequenos alambiques artesanais como a migração dos fabricantes dos sertões mais distantes para o mercado informal no intuito de se livrar da carga de impostos.

Apesar de a quantidade de produtores ter caído, o Anuário da Cachaça detectou aumento no número de marcas (rótulos) de cachaça, que saltou de 3.648 para 4.003. Isso indica uma concentração da produção em estabelecimentos com viés mais industrial do que artesanal, com maior número de produtos sendo manipulados por um mesmo fabricante. A gourmetização da bebida faz com que o mesmo rótulo tenha várias versões, dependendo do tempo de envelhecimento da cachaça e do tipo de madeira utilizado nos barris.

E Minas Gerais continua sendo o campeão na produção, com quase o triplo de alambiques em relação a São Paulo, segundo colocado. A Região Sudeste concentra quase 70% dos produtores, seguido pelo Nordeste, com 14,4%, e Sul, com 11,3%. Já não há mais alambiques cadastrados no Acre, Amapá, Amazonas e Roraima.

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