Casa Cor SP 2026: quando arquitetura, memória e sensibilidade voltam ao centro do projeto

Com o tema “Mente e Coração”, a Casa Cor 2026 apresenta ambientes que unem tecnologia, memória afetiva e a valorização brasileira

A Casa Cor sempre foi um território de experimentação. Foto: Divulgação

Por: Cecilia Hoe, arquiteta

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A Casa Cor sempre foi um território de experimentação. É um espaço em que arquitetos, designers de interiores e paisagistas podem ultrapassar os limites impostos pelos programas e orçamentos dos projetos cotidianos para explorar novas linguagens, materiais, tecnologias e formas de habitar.

Mais do que antecipar tendências, a Casa Cor funciona como um laboratório onde é possível experimentar novas formas de morar, construir e estabelecer relações entre pessoas, espaços e cultura.

Ao percorrer seus ambientes, não buscamos apenas soluções que possam ser reproduzidas em projetos reais, mas também ideias, atmosferas e reflexões capazes de ampliar nosso repertório e provocar novos olhares sobre a arquitetura contemporânea.

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Nos últimos anos, essa liberdade criativa passou a dialogar com uma narrativa proposta pela curadoria da mostra. Em 2026, o tema “Mente e Coração” convida a refletir sobre um dos grandes desafios do nosso tempo: como incorporar os avanços tecnológicos e o enorme fluxo de informações sem perder aquilo que nos torna essencialmente humanos.

Essa reflexão aparece de diferentes maneiras ao longo da exposição. Percebe-se o retorno do afeto, da memória e da identidade como elementos estruturadores dos projetos; a valorização da arte e da curadoria nos interiores; a presença da tecnologia integrada de forma mais discreta, quase invisível; e uma compreensão da sustentabilidade que ultrapassa o discurso ambiental, valorizando a permanência, o reuso, o saber artesanal e a durabilidade dos materiais.

Entre os ambientes que mais chamaram minha atenção estão aqueles que resgatam técnicas construtivas e materiais de origem natural, como a Biobilheteria, de Viviane Teles, construída com bambu laminado e lona tensionada translúcida, e o Living Ritmo Vital, da MAAI Arquitetura Integrada, onde madeira, palha e peças do artesanato indígena criam uma atmosfera de acolhimento e conexão com as raízes brasileiras.

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Também chamou a atenção a convivência de linguagens aparentemente opostas. Enquanto espaços como a Casa Brastemp, de Marcelo Salum, exploram o maximalismo por meio da abundância de cores, texturas e objetos, ambientes como Ruído Branco, de Cyro Arquitetura, e Casa Cosentino Sanare, de Natan Gil, demonstram que o minimalismo continua atual ao utilizar o vazio, a luz e poucos elementos cuidadosamente escolhidos para construir espaços de grande intensidade sensorial.

A memória afetiva aparece como outro eixo importante da mostra. Projetos como Casa Memórias Essenciais, de Felipe de Almeida, e A Poética do Ritmo, de Isabella Nalon Arquitetura e Interiores, revelam como os espaços podem ser construídos a partir das histórias, lembranças e vínculos emocionais de quem os habita. Já ambientes como Lounge Mi Corazón, de Michele Wharton, e Ilha da Alma, de Nicholas Oher, reforçam o interesse crescente pela ancestralidade e pelas referências culturais como elementos de identidade.

Dois projetos merecem destaque especial pelo resgate da cultura do design brasileiro. A Casa da Marcenaria Brasileira, de João Panaggio, presta homenagem aos mestres marceneiros e a nomes fundamentais do design nacional, como Etel Carmona, Claudia Moreira Salles, Lia Siqueira, Lina Bo Bardi e Jorge Zalszupin, evidenciando a importância desses profissionais na construção da identidade do mobiliário brasileiro. Na mesma direção, a Casa Simonetto – Tributo a Janete Costa, de Gabriel Fernandes, celebra a obra da arquiteta pernambucana que fez da valorização da arte popular e do fazer artesanal brasileiro uma das marcas de sua trajetória.

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Em relação aos materiais, predominam elementos naturais — pedras, madeiras, bambu, palhas, fibras, tramas artesanais, tecidos produzidos em tear manual e cristais —, reforçando a busca por texturas e experiências sensoriais. Na paleta cromática, destacam-se os tons terrosos, diferentes matizes de verde, roxos e tonalidades de vermelho, bordô e rosa. As formas orgânicas e curvas permanecem em evidência, confirmando uma tendência que privilegia espaços mais fluidos e acolhedores.

Ao final da visita, fica a impressão de que a Casa Cor 2026 fala menos sobre tendências passageiras e mais sobre valores permanentes. Em um momento em que a inteligência artificial, a automação e as novas tecnologias transformam rapidamente a maneira como vivemos, a arquitetura parece responder lembrando que nenhuma inovação substitui aquilo que continua sendo exclusivamente humano: a memória, a sensibilidade, a cultura e a capacidade de construir espaços que emocionam.