Por: Armando Paes, Presidente da Febracon e ex pre-candidato a vice governador do RJ e Ramon Neves, cientista político.
Na última terça feira à noite, o eleitor fluminense finalmente viu o que lhe foi negado durante toda a campanha: todos os principais candidatos ao governo no mesmo palco.
Foi o primeiro e o último debate completo desta eleição. Depois que Eduardo Paes faltou ao encontro da Band, as emissoras foram cancelando seus debates uma a uma, e a disputa estadual atravessou semanas num silêncio pouco comum para um estado deste tamanho.
O saldo do debate foi desconfortável para o favorito. Paes pareceu acuado, sem energia e sem respostas para as polêmicas que o perseguem. Os adversários, que tiveram meses para ensaiar os ataques, chegaram afiados. Mais do que um mau desempenho, a noite mostrou uma tendência: a candidatura que parecia inevitável em janeiro chega à reta final derretendo.
Muitos analistas deram a eleição como decidida desde o início do ano, uns no primeiro turno, outros no segundo. Poucos admitem o que os números passaram a sugerir. Vale entender como se chegou aqui, porque essa derrocada não é obra do acaso. Ela foi construída, decisão por decisão.
- A armadilha do favoritismo
Toda campanha favorita enfrenta a mesma tentação: confundir vantagem com destino. No caso de Paes, ela veio em dose dupla. Houve sucessivas pesquisas generosas e houve o colapso do grupo adversário, com derrotas na Justiça e uma sucessão turbulenta após a renúncia de Cláudio Castro.
Algumas sondagens chegaram a lhe atribuir cerca de 70% dos votos válidos. Esse número é incompatível com um país que há quase uma década vota dividido em dois blocos quase do mesmo tamanho. Pior ainda, muitos cenários deixavam de fora adversários competitivos como Garotinho e Witzel. E quase nenhuma media a capacidade do bolsonarismo de transferir votos para um nome até então desconhecido.
Esse retrato distorcido teve um efeito útil e outro venenoso. O útil foi atrair aliados de todos os lados: uma vice bolsonarista, o apoio do PT e de boa parte da esquerda fluminense. Formou-se uma frente tão ampla que só fazia sentido porque todos queriam estar ao lado do vencedor. O venenoso foi convencer o próprio candidato de que a eleição estava ganha. Com tanta gordura para queimar, Paes concluiu que não precisava enfrentar suas fragilidades. E quem acha que não precisa explicar nada passa a parecer arrogante. - Uma chapa montada para os amigos, não para os votos
A primeira prova disso veio na montagem da chapa. Mesmo encabeçando uma aliança heterogênea, Paes impôs o nome de seu aliado mais fiel e mais controverso: Pedro Paulo. É o mesmo Pedro Paulo que, em 2016, mesmo com toda a vitrine da Olimpíada, terminou em terceiro lugar na disputa pela prefeitura.
A resistência veio primeiro da esquerda aliada. Pesou o episódio envolvendo a ex-mulher, nunca plenamente esclarecido, e pesou um histórico de posições difícil de defender nesse campo, como o apoio ao impeachment de Dilma e às reformas da Previdência e administrativa. Paes gastou capital político para acomodar um amigo. Ao mesmo tempo, deixou de buscar quem tinha voto: o Republicanos e Marcelo Crivella, que ainda falam com uma parte relevante do eleitorado evangélico, provavelmente o bloco mais organizado e decisivo do estado. - O cowboy e o interior
Paes sempre teve um problema conhecido: a clivagem entre a capital e o interior. Para tentar resolvê-lo, trocou o chapéu panamá por um figurino de vaqueiro e rodou o estado. Fez muitas fotos, muitas agendas e muitos acenos a lideranças locais, como um ex-BBB em turnê de divulgação.
O erro foi de diagnóstico. Engajamento nas redes e popularidade de celebridade não se convertem automaticamente em voto. A rejeição no interior não era uma questão de figurino. Ela vem de uma percepção antiga de que Paes é o candidato da capital, e isso só se muda com proposta e presença política. Fantasia não resolve. - Engenharia eleitoral às avessas
No início do ano, a confiança era tanta que Paes chegou a cogitar ser ele mesmo o candidato apoiado pelo PL, uma espécie de vitória por W.O. Quando isso não aconteceu, comemorou as derrotas de Castro e trabalhou para tirar da disputa dois adversários incômodos, Garotinho e Wilson Witzel.
Aqui está talvez o erro estratégico mais sofisticado da campanha. Em eleições de dois turnos, um eleitorado adversário dividido é o melhor aliado do favorito. Garotinho e Witzel competindo de verdade teriam disputado o mesmo voto conservador e popular que hoje se concentra em Douglas Ruas. Ao ajudar a limpar o campo, Paes facilitou a consolidação do seu principal rival. E ainda abriu mão de possíveis aliados para um eventual segundo turno. - Oito páginas e um cheque em branco
Com a campanha oficialmente iniciada, veio o plano de governo: oito páginas. Um político que foi quatro vezes prefeito do Rio e já disputou o governo duas vezes apresentou ao eleitor algo mais parecido com uma carta de apresentação do que com um programa.
O recado implícito era claro: quem tem 70% dos votos válidos não precisa se comprometer com nada. Mas eleições não se ganham só com votos, elas também se sustentam com expectativas. Um candidato que não promete nada também não oferece ao eleitor indeciso um motivo para escolhê-lo. - O erro capital: fugir dos debates
Se houve uma decisão que resume a campanha, foi a de faltar a todos os debates, exceto o último, o da Globo. Um candidato que nunca governou o estado se deu ao luxo de não comparecer.
O custo foi triplo. Primeiro, reforçou a imagem de deboche e soberba que o acompanha há anos. Segundo, desperdiçou sua maior vantagem comparativa. Com exceção de Garotinho, os adversários eram estreantes, inclusive o candidato do PL, e o debate era o palco ideal para Paes exibir experiência e projeto. Terceiro, e mais grave, tirou a eleição estadual da conversa pública.
O contraste com 2024 é impressionante. Naquele ano, liderando com folga a disputa pela prefeitura, Paes foi a todos os debates e neutralizou o candidato bolsonarista com relativa facilidade. A pergunta de por que mudou de estratégia continua sem resposta. O resultado, porém, está à vista.
Sem debates, a campanha passou a acontecer dentro das bolhas, e esse é exatamente o ambiente em que o bolsonarismo funciona melhor. A disputa estadual se nacionalizou. Douglas Ruas foi consolidando seu apoio aos poucos, tendo Flávio Bolsonaro como padrinho. Quando a eleição vira plebiscito sobre identidade política em vez de comparação entre currículos, o candidato mais experiente perde justamente aquilo que o diferenciava. - Atirando no alvo errado
Na propaganda, a campanha de Paes apostou em associar Douglas Ruas a Cláudio Castro, a Rodrigo Bacellar, a Crivella e, surpreendentemente, a Wilson Witzel.
Witzel merece um parágrafo à parte. Paes nunca digeriu a derrota de 2018 e, nesta campanha, citou o ex-governador como raiz dos problemas do estado mais vezes do que citou Castro, embora Witzel esteja fora do poder há anos. Com Castro, a crítica sempre foi mais branda, o que se explica pela amizade conhecida e registrada em vídeos de chope e samba. Isso é tão evidente que o próprio Ruas usou o tema contra ele.
A tática de colar a rejeição de terceiros no adversário é tão ingênua quanto a dos rivais que tentam grudar Sérgio Cabral em Paes. O eleitor de 2026 não pensa em cadeia de padrinhos. Além de ineficaz, essa estratégia destruiu pontes que poderiam ser decisivas num segundo turno apertado.
Crivella aparece com cerca de 10% no primeiro voto para o Senado, o dobro de Pedro Paulo, que depende dos votos de Benedita. Witzel, quando ainda era pré-candidato, oscilava entre 5% e 8%. Esses números mostravam que o voto conservador estava fragmentado e que havia espaço para negociar. Paes preferiu hostilizá-los. - Alianças de cúpula, eleitores ausentes
No lugar dessas pontes, Paes escolheu o arranjo tradicional: prefeitos dando tapinhas nas costas e caciques que foram base de sustentação de Cláudio Castro, mas que não trazem voto próprio. Entram nessa lista Dr. Luizinho, ex-secretário de Saúde, Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, Washington Reis, ex-secretário de Transportes, e Áureo Ribeiro, deputado e irmão da secretária de Cultura, entre outros.
O resultado é uma contradição difícil de explicar. Paes faz campanha contra o “castrismo” com a estrutura do castrismo ao seu lado. Ele ganhou capilaridade, mas perdeu coerência. Em eleições de mudança, a coerência costuma pesar mais. - Dos 40 pontos ao empate técnico
A poucos dias da votação, a vantagem que já passou de 40 pontos sobre o segundo colocado virou um empate técnico no limite da margem de erro, ainda no primeiro turno. Poucas campanhas no país desperdiçaram uma vantagem dessa proporção em tão pouco tempo. - A ironia do tapetão
Por anos, Paes repetiu que perdeu 2018 “no tapetão”, por causa de decisões judiciais contra seus aliados. Hoje, conta com um governador em exercício que lhe é favorável, e seu grupo aposta numa eventual decisão do TSE que indefira a candidatura de Garotinho depois da eleição. Isso anularia os votos do adversário e poderia lhe dar a vitória no primeiro turno. O mundo dá voltas. E o eleitor costuma punir quem parece querer vencer fora das urnas.
Para quem conhece o Rio além dos números, esse cenário não é tão surpreendente. O eleitor fluminense tem um histórico consistente de punir favoritos que o tratam como garantido. Paes já viveu isso duas vezes.
A questão agora não é só se ele vai perder. É se, caso isso aconteça, vai continuar alimentando a ilusão que ele mesmo construiu e passar mais quatro anos ressentido. Ou se, desta vez, vai encarar uma hipótese desconfortável: a de que o Rio gosta do prefeito Eduardo Paes, mas talvez simplesmente não o queira como governador.
Armando Paes – Presidente da Febracon e ex pre candidato a vice governador do RJ
Ramon Neves – Cientista Político
