Comecei a treinar em 2002. Competi por mais de uma década, fui campeã mundial Wellness e vi a academia mudar por dentro. Muita coisa melhorou. As mulheres ocupam mais espaço, treinam com mais força, mais conhecimento e mais liberdade. Mas também vejo algo que merece ser dito com cuidado: nem toda escolha que parece nossa nasce realmente dentro de nós.
A indústria aprendeu a vender desejo. Antes era o cigarro como símbolo de liberdade feminina. Hoje, muitas vezes, é o corpo exposto como prova de autoestima. Top cada vez menor, short cada vez mais curto, legging cada vez mais marcada. Tudo aparece no feed como se fosse apenas empoderamento.
Mas quando a mesma imagem se repete todos os dias, patrocinada por marcas, influenciadoras e algoritmos, vale perguntar: estou escolhendo ou estou sendo conduzida a escolher?
Outro dia, no vestiário, vi uma menina de uns quinze anos ajustando o top diante do espelho antes do treino. Ela não estava conferindo o caimento. Estava posando — ângulo do quadril, virada de ombro, o gesto exato de quem aprende a se ver pelos olhos de outra pessoa antes mesmo de aprender a treinar. Não a julguei. Pensei em mim aos quinze.
Não escrevo como fiscal do corpo de ninguém. Eu mesma treino de top e short quando entendo que faz sentido. Também não acredito em vergonha imposta à mulher. O corpo feminino não é problema. O problema é quando a liberdade vira obrigação de exposição. Quando a roupa deixa de servir ao treino e passa a servir ao olhar.
Não se trata de cobrir o corpo por medo do olhar alheio.
Trata-se de lembrar que a academia é ambiente compartilhado – mulheres, homens, casais, adolescentes, pessoas idosas, iniciantes, atletas e gente que só quer cuidar da saúde em paz. Liberdade adulta considera o ambiente onde se exerce.
A forma como nos apresentamos nesse espaço também comunica respeito.
Cuidado com a mulher também é isso: protegê-la da ideia cruel de que ela precisa estar sempre disponível ao olhar. Sempre bonita, sempre sensual, sempre pronta para virar conteúdo.
Há uma diferença enorme entre se sentir bem no próprio corpo e transformar o próprio corpo em vitrine.
Para mim, elegância no treino não está no tamanho da roupa. Está na intenção. Se a escolha é sua, consciente, confortável e adequada ao espaço, ótimo.
Mas se ela nasce da comparação, da pressão ou da necessidade de ser vista, talvez não seja liberdade. Talvez seja só mais uma forma moderna de controle.
Minha pergunta de estreia é simples: você está indo à academia para treinar o seu corpo — ou para obedecer ao olhar que ensinaram você a buscar?
