O impossível é realizável

Alessandro Zanardi sempre correu contra o óbvio

Alessandro Zanardi sempre correu contra o óbvio; quando chegou à Fórmula 1 nos anos 1990, parecia mais um talento promissor em um grid implacável

Alessandro Zanardi sempre correu contra o óbvio; quando chegou à Fórmula 1 nos anos 1990, parecia mais um talento promissor em um grid implacável | Giuliano Gomes/Folhapress

Alessandro Zanardi sempre correu contra o óbvio. Quando chegou à Fórmula 1 nos anos 1990, parecia mais um talento promissor em um grid implacável. Não encontrou ali o destino que muitos projetavam, mas não se resignou ao papel de coadjuvante. Mudou de rota, atravessou o Atlântico e, na Indy, encontrou o lugar onde seu talento podia ser plenamente exercido.

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Em 1997 e 1998, conquistou dois títulos da categoria com autoridade, pilotagem agressiva e uma inteligência de corrida que o transformaram em referência. Era rápido, carismático, vencedor. Tudo parecia enfim alinhado.

Então veio o dia 15 de setembro de 2001, em Lausitzring. Um erro na saída dos boxes, uma colisão a mais de 300 km/h, um impacto devastador. Zanardi sobreviveu por milagre, mas perdeu as duas pernas. O mundo que ele conhecia, feito de pistas, troféus e ultrapassagens, desmoronou em segundos. Para muitos, aquele seria o ponto final. Para ele, foi uma vírgula.

A primeira vitória de Zanardi após o acidente não veio em um pódio. Veio no hospital, quando decidiu que não seria definido pela ausência, mas pelo que ainda podia construir. A reabilitação foi longa, dolorosa e incerta. Ele reaprendeu a viver, depois a dirigir, e por fim a competir.

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Não houve romantização do sofrimento: houve disciplina, método, humor e uma obstinação rara. Zanardi transformou próteses em ferramentas de performance, e limites em problemas técnicos a serem resolvidos.

O retorno às corridas, em 2003, foi mais do que simbólico. Em 2005, no Mundial de Turismo (WTCC), venceu em Oschersleben com um carro totalmente adaptado pela BMW para suas necessidades, tornando-se o primeiro piloto amputado a ganhar uma prova de alto nível no automobilismo moderno. Voltaria a vencer em 2006, em Zolder. Não eram apenas resultados esportivos; eram declarações de possibilidade.

Em cada largada, Zanardi dizia sem palavras que a biologia não é sentença, e que a engenharia, do carro, do corpo, da mente, pode redesenhar destinos.

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Mas sua história não parou nas pistas. Zanardi encontrou no paraciclismo uma nova fronteira. Competiu com a mesma seriedade com que encarava um grid internacional, treinando com rigor e planejando cada detalhe.

O resultado foi extraordinário: ouro nos Jogos Paralímpicos de Londres 2012 (na prova de estrada e no contrarrelógio por equipes), repetido em Rio 2016, além de pratas e títulos mundiais. Em uma carreira que já havia sido reinventada uma vez, ele se reinventou de novo.

O que torna Zanardi um personagem maior que seus troféus é a lição de vida que ele oferece sem paternalismo. Não se apresenta como herói inatingível, mas como trabalhador de si mesmo. Fala de medo, de dor, de dias ruins. E fala, sobretudo, de escolhas: a de não se reduzir ao acontecimento mais trágico de sua biografia; a de permanecer em movimento quando o mundo sugere imobilidade.

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Em um tempo em que a palavra “resiliência” se banalizou, Zanardi devolve-lhe densidade. Resiliência, em sua trajetória, não é apenas resistir,  é transformar. Transformar perdas em projetos, limitações em métodos, queda em reinício. Seu legado não está apenas nos títulos da Indy, nas vitórias no WTCC ou nos ouros paralímpicos. Está na prova diária de que o impossível não é uma parede, mas uma pergunta.

Há histórias que inspiram por um dia. A de Alessandro Zanardi inspira por uma vida inteira. Porque ela não promete atalhos, nem milagres. Promete trabalho, coragem e a convicção de que, mesmo quando tudo parece ter acabado, ainda pode ser começo. O impossível, quando encarado, pode ser, como ele mostrou, realizável.