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Ideia de que certas palavras em inglês 'simplesmente não têm tradução' aparece com frequência em conversas sobre idiomas
30/11/2025 às 01:00
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Traduzir, afinal, é um exercício de sensibilidade, de adaptação, de encontrar o modo mais natural de expressar uma ideia em outra língua | Freepik
A ideia de que certas palavras em inglês “simplesmente não têm tradução” aparece com frequência em conversas sobre idiomas, especialmente quando falamos do inglês. Termos como mindset, coaching ou low profile parecem, à primeira vista, não ter equivalentes diretos em português. Mas será que isso é verdade?
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Anos atrás, conversei sobre esse tema com o experiente tradutor e intérprete Ulisses Carvalho em um vídeo no meu canal English in Brazil. Naquela conversa, discutimos justamente essas palavras e chegamos a uma conclusão interessante: mesmo as consideradas “intraduzíveis” encontram, com um pouco de contexto, um caminho natural em português.
Tradutores e intérpretes costumam concordar nesse ponto: sempre há uma forma de traduzir. Pode não ser perfeita, literal ou idêntica, mas existe sempre um jeito de transmitir o sentido. Afinal, traduzir não é apenas trocar palavras, e sim transportar significados entre culturas.
E um disclaimer importante aqui: não há problema algum em usar termos em inglês quando o contexto permite. Palavras como deadline, feedback ou streaming já fazem parte do nosso vocabulário cotidiano, e ninguém precisa ser purista a ponto de evitá-las. O importante é saber quando faz sentido mantê-las e quando há uma forma natural e clara de dizê-las em português.
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Traduzir, afinal, é um exercício de sensibilidade, de adaptação, de encontrar o modo mais natural de expressar uma ideia em outra língua, mesmo que o resultado soe diferente do original. A seguir, dez exemplos de termos frequentemente vistos como “intraduzíveis” mas que, com o olhar certo, encontram morada natural em português:
1. Disclaimer:
Usado em textos, vídeos e contratos, disclaimer pode parecer intraduzível, mas não é. Em uma conversa informal, significa simplesmente “ressalva”, algo como “antes de continuar, quero deixar claro que…”. Já em contextos jurídicos, corporativos ou médicos, o termo vira “nota de isenção de responsabilidade”, comum em contratos e avisos.
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2. Mindset
Virou palavra da moda em palestras e livros de autoajuda, mas seu equivalente existe: “mentalidade”. Falar em growth mindset é o mesmo que dizer “mentalidade de crescimento”. O termo remete à forma de pensar, ao conjunto de crenças que orientam nossas atitudes. Assim como dizemos “ele tem uma mentalidade empreendedora”, podemos dispensar o inglês sem perder o conceito.
3. Mindful / Mindfulness
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Essas palavras estão associadas a práticas de atenção e autoconsciência. Mindful pode ser traduzido como “consciente”, “atento” ou “presente”, enquanto mindfulness se tornou popular como “atenção plena”, o estado mental de focar no momento presente. Um exemplo seria: I’m trying to be more mindful about my time online (Estou tentando ser mais consciente do tempo que passo online).
4. Coaching
Embora o termo tenha se espalhado pelo português, ele tem tradução possível, dependendo do contexto. Coaching pode significar “orientação profissional”, “treinamento personalizado” ou “mentoria”. O verbo to coach é “treinar” ou “orientar”.
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5. Low Profile
Muito usado para descrever pessoas discretas, low profile equivale a “reservado”, “discreto” ou “sem alarde”. Um exemplo típico seria: She prefers to keep a low profile at work (Ela prefere ser discreta no trabalho). O termo transmite a ideia de evitar exposição desnecessária, algo valorizado em muitos contextos corporativos.
6. Mainstream
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Refere-se ao que é popular, amplamente aceito ou de grande alcance. Um cantor “mainstream” é aquele que está no “grande público” ou no “mercado convencional”, o oposto de “alternativo” ou “independente”. Em cultura pop, por exemplo, Beyoncé is mainstream, but Billie Eilish started as indie.
7. Approach
A tradução mais comum é “abordagem”, mas a palavra muda de nuance conforme o contexto. Um professor pode ter uma “abordagem comunicativa”, um psicólogo, uma “abordagem humanista”, e um profissional de vendas, uma “abordagem estratégica”. Em inglês, approach também pode significar “método”, “forma de lidar com algo” ou, literalmente, “aproximação”.
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8. Networking
Talvez uma das palavras mais citadas no mundo corporativo. Networking não é apenas “fazer contatos”, mas “construir uma rede de relacionamentos profissionais”. Em português, a ideia se expressa bem com “ampliar sua rede de contatos”. Exemplo: Networking isn’t about collecting contacts, it’s about building relationships (Fazer networking não é colecionar contatos, é construir relações).
9. Stakeholder
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É uma palavra técnica que define todos os “envolvidos” ou “partes interessadas” em uma organização. Inclui clientes, funcionários, investidores, governo e comunidade. Em português, pode-se dizer “as partes interessadas do projeto”, uma tradução precisa e amplamente usada na administração e na comunicação empresarial.
10. Family Friendly
Usado para classificar conteúdos, eventos ou estabelecimentos adequados para todas as idades. Em português, family friendly vira “conteúdo familiar”, “ambiente para famílias” ou “adequado para crianças”. No mundo digital, o termo “user friendly” também aparece com frequência, e significa “intuitivo”, “fácil de usar”. Um aplicativo “user friendly” é aquele que qualquer pessoa consegue entender sem manual.
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Esses exemplos mostram que o problema não é a ausência de palavras, mas a diferença de moldura cultural. O mito das palavras “intraduzíveis” vem da ilusão de que as línguas são caixas perfeitas, que se encaixam termo a termo. Mas as línguas são, na verdade, sistemas de visão de mundo.
E é nesse espaço entre o inglês e o português, entre o literal e o possível, que a linguagem mostra sua força mais bonita: a de sempre encontrar um jeito de fazer sentido.
Carina Fragozo é doutora em Linguística pela USP, criadora do canal English in Brazil, com mais de 2 milhões de inscritos no YouTube, e fundadora do curso online English in Brazil.
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