Fui convidada recentemente a ler um capítulo de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés. O capítulo escolhido foi “A volta ao lar: o retorno ao próprio Self”, baseado no conto “Pele de Foca, Pele da Alma”.
Confesso que a leitura me fez parar.
No conto, uma mulher-foca vive no mar, sua verdadeira natureza. Ao se apaixonar por um homem, deixa o oceano e passa a viver em terra. Sua pele de foca é escondida, impedindo-a de retornar ao lugar de onde veio.
Com o tempo, embora continue vivendo, cuidando, amando e cumprindo seu papel, algo dentro dela começa a definhar.
A metáfora é poderosa: a pele representa nossa essência, aquilo que nos conecta com quem verdadeiramente somos.
Quantas vezes fazemos isso conosco?
Vestimos papéis, assumimos responsabilidades, atendemos expectativas, cuidamos de todos, entregamos resultados. Somos profissionais, mães, companheiras, líderes, filhas.
E, muitas vezes, somos tão eficientes em tudo isso que ninguém percebe quando estamos nos afastando de nós mesmas. O mais interessante é que “voltar para casa” não significa necessariamente abandonar tudo.
Não é simplesmente fugir de uma situação difícil. É recuperar partes de nós que foram ficando pelo caminho: a nossa voz, a criatividade, a coragem, a alegria, o silêncio, a capacidade de dizer não, o direito de descansar.
Talvez por isso esse conto tenha me tocado tanto.
Vivemos em uma cultura que valoriza velocidade, produtividade e performance. Mas a vida também é feita de ciclos. Há momentos de avançar e momentos de recolher.
De construir e de reconstruir. De estar disponível para o mundo e, principalmente, de voltar para dentro.
A pergunta que ficou comigo depois dessa leitura foi simples e desconcertante: Qual é a minha “pele de foca”?
O que existe em mim que é tão essencial que, quando me afasto disso, continuo funcionando — mas deixo de me sentir inteira? Talvez maturidade seja também reconhecer quando chegou a hora de voltar. Não necessariamente para um lugar. Mas para nós mesmas.
