Desaparecidos políticos: o começo de uma busca incansável

Abordaremos hoje um tema sensível e controverso, muito mais pela falta de enfrentamento histórico do que pelos fatos em si

Premiado filme de Walter Salles inspirado na magnífica obra de Marcelo Rubens Pais "Ainda Estou Aqui" trouxe ao conhecimento do público em geral a verdade que ainda se busca esconder e deturpar, mesmo passados 41 anos

Premiado filme de Walter Salles inspirado na magnífica obra de Marcelo Rubens Pais "Ainda Estou Aqui" trouxe ao conhecimento do público em geral a verdade que ainda se busca esconder e deturpar, mesmo passados 41 anos | Divulgação

Durante os 21 anos de duração da Ditadura Militar no Brasil, com finalidade de reprimir vozes dissonantes, questionamentos de intelectuais, jornalistas, trabalhadores e jovens e até mesmo movimentos populares (hoje tão comuns que já nem lembramos como era quando não podíamos fazer), muitas ações perpetradas pelos agentes do Estado foram literalmente planejadas, patrocinadas e ocultadas pelo Estado Brasileiro.

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Eram comuns sequestros em plena luz do dia, prisões sem mandado, e uso de tortura e mortes como instrumentos de “dissuasão” para obter nomes, localização e até “confissões” do que quisessem usar para depois justificar seus atos.

O premiado filme de Walter Salles inspirado na magnífica obra de Marcelo Rubens Pais “Ainda Estou Aqui” trouxe ao conhecimento do público em geral (contemporâneo, mas ignorante dos fatos e, principalmente, os que jamais vivenciaram um Estado sem democracia), a verdade que ainda se busca esconder e deturpar, mesmo passados 41 anos.

Para muitos casos, como o narrado no filme do ex-deputado Rubens Paiva, a solução encontrada foi “desaparecer” com a vítima, e negar, cinicamente, que ela sequer esteve sob a custódia do Estado.

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A prática “pegou” e foi adotada por “esquadrões da morte” e outros grupos à margem da Lei, com a desculpa de estarem “eliminando bandidos”.

E foi daí que surgiu o impasse criado pelo próprio Estado: como colocar sua máquina investigativa e policial para procurar pessoas desaparecidas, quando ele próprio usava dessa mesma máquina para desaparecer com aqueles que lhe eram inconvenientes?

Se era possível sequestrar, prender, torturar, matar e desaparecer com pessoas proeminentes (parlamentares, jornalistas conhecidos, artistas, estudantes, etc.), por que iria o Estado se importar com a criança ou o trabalhador da periferia, sem acesso à mídia, sem recursos familiares que permitissem levar ao conhecimento público o seu desaparecimento?

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E infelizmente, é ainda contra os resquícios desse pensamento preconceituoso e elitista, que os familiares dos desaparecidos cotidianamente lutam em busca de visibilidade, empatia, respeito e ações concretas por parte do Estado, em todas as suas esferas e níveis de Poder: desde o agente policial que atende a mãe em desespero e pergunta se o filho era ligado ao tráfico ou insinua que o marido “fugiu com a amante”, até mesmo à falta de atendimento e escuta por parte das Defensorias e Ministérios Públicos Estaduais em alguns Estados.

Todavia, se hoje essas mães e familiares conseguem se organizar e se fazerem ouvir, muito se deve à luta incansável dos familiares dos desaparecidos políticos do Brasil que, mesmo com a certeza de que o destino daqueles que buscam foi a morte, nunca desistiram e não desistirão de buscar respostas, e se aliam em solidariedade e voz a essas famílias, cuja dor compartilham.