Os movimentos de buscas por pessoas desaparecidas, em especial na América do Sul, quase todos se iniciaram a partir dos familiares de pessoas desaparecidas durantes as ditaduras que se instalaram a partir dos anos 1960/70 em vários países.
Ganhou destaque para além das fronteiras o Movimento de “Las Madres de la Plaza de Mayo” (As mães da Praça de Maio) em Buenos Aires, Argentina. Hoje, aquelas madres/mães se tornaram as “avuelas/avós”, que ainda persistem em sua luta, desta feita pelos netos, nascidos durante a prisão de seus pais e que foram destinados a adoção, em sua maioria, pelas famílias dos próprios algozes de seus pais. Uma situação que só reafirma os horrores a que foram submetidas gerações inteiras durante esses anos macabros.
Em 1995 a autora Gloria Perez escreveu a novela “Explode Coração”, que tinha por narrativa paralela a busca de uma mãe pelo seu filho, e que, ao final de cada capítulo, contava histórias de várias outras mães, que vivenciavam o mesmo suplício da personagem principal.
Os depoimentos foram gravados na Cinelândia, no Rio de Janeiro, mas foram convidadas inúmeras mães, de diversos Estados. Para muitas, esse momento foi o primeiro a lhes dar a dimensão do problema que cada qual vivia, até então, individualmente.
Duas mães de São Paulo foram juntas para a gravação, apresentadas pela própria produção da novela, pois até então não se conheciam. O fato de verem suas histórias contadas em horário nobre ampliou suas esperanças de encontrarem as filhas desaparecidas com poucos anos de diferença de cada evento. De fato, o folhetim possibilitou o encontro de 60 crianças na vida real, mas não a dessas duas mães em especial.
No entanto, a partir do encontro para a gravação dos depoimentos, foram procuradas pela imprensa local de São Paulo, e decidiram fazer um chamamento para um encontro na Praça da Sé, sendo surpreendidas com o número de famílias que atendeu o chamado. E assim nasceu o Movimento “Mães da Sé”, que para muitos era a última, ou única, esperança de reencontrar seus entes amados desaparecidos: crianças, jovens ou adultos.
A iniciativa deu visibilidade à situação e se tornou referência em todo país como movimento de famílias que buscam por seus filhos num protesto silencioso, todos os domingos, nas escadarias da Catedral da Sé em São Paulo. A partir do movimento organizado, iniciaram parcerias com empresas, que divulgavam fotos nos produtos, e obtiveram apoio e patrocínio para manterem encontros com autoridades municipais, estaduais e federais ao longo de três décadas.
Em 2005, uma das mães resolveu sair do cargo de vice-presidente da diretoria e retomar um projeto pessoal anterior: o “Mães em Luta”, que além de divulgações mantém ações e projetos de atendimento e assistência aos familiares.
Todas as lutas e resultados até o presente têm a contribuição dessas mães pioneiras, referência nas iniciativas de políticas públicas e leis existentes. E é a história delas que contaremos na próxima coluna.
