Sem saída

Apoio popular é vital para o presidente manter o mandato; Brasil tem uma história recente de golpes de estado rotulados de revolução

O presidente está sem saída

O presidente está sem saída | João Pavese/Pexels

O presidente está sem saída. A volta à presidência do Brasil é um feito reservado para poucos na história da República.

Continua após a publicidade

Principalmente para um político que foi acusado e isolado do sul do país. Esse isolamento não impede que continue liderando seu partido e dar as cartas sobre o cenário político nacional.

Isso mostra que realmente é um líder que conta com o apoio da maioria da população. Ele nunca desistiu de voltar ao poder. Gosta do poder.

Gosta de governar. Ele se atira na campanha eleitoral com grande vigor, viaja por grande parte do país e ocupa os palanques eleitorais preparados pelos seus aliados. Tem experiência nos discursos e sabe dizer o que o povo quer ouvir.

Continua após a publicidade

Tem treino para dar entrevistas contundentes com temas preparados com antecedência para ocupar o espaço na mídia e pôr nas cordas seus adversários.

Enfim, é o maior líder político que já surgiu no Brasil desde a proclamação da República, gostem ou não os seus adversários. Às vezes na direita, às vezes na esquerda. Ele é hábil para não transformar adversários em inimigos. Nem amigos em desafetos.

O apoio popular é vital para o presidente manter o mandato. O Brasil tem uma história recente de golpes de estado rotulados de revolução.

Continua após a publicidade

Os motivos são os mais diferentes e vão de ameaça ao sistema democrático à burla da Constituição Federal. Os golpes são justificados pelos seus líderes com a bandeira da defesa do povo e da nacionalidade.

O atual presidente tem amplo apoio da população e derrubá-lo pura e simplesmente pode levar o país para uma guerra civil.

Há uma forte polarização na imprensa, nas Forças Armadas e na população. O chefe do Executivo foi eleito para um novo mandato com uma larga vantagem sobre o segundo colocado. Sua estratégia eleitoral é dizer que está ao lado dos pobres, dos descamisados, dos necessitados.

Continua após a publicidade

Em troca, é considerado o pai dos pobres e o seu retrato está pendurado em todas as repartições públicas do país. Não há quem não o reconheça, mesmo nas regiões mais distantes da capital do Brasil.

A oposição não dá folga para o presidente. A volta dele ao poder gera uma reação especialmente dos deputados e senadores ligados aos partidos políticos de direita.

O presidente tem o apoio dos partidos de esquerda e dos sindicatos. Para muitos, é surpreendente que ele tenha migrado da direita para a esquerda.

Continua após a publicidade

Durante o período que esteve no poder, entre 1930 e 45, foi claramente favorável à elite nacional, especialmente aos proprietários de terras, e nunca escondeu sua admiração pelo fascismo.

Getúlio Vargas sofre forte oposição com uma política que rotula como nacionalista, refratária à participação do capital estrangeiro no Brasil.

Principalmente na prospecção e exploração de petróleo, um combustível que fica cada vez mais importante e estratégico no mundo. Sua bandeira é “o petróleo é nosso”.

Continua após a publicidade

O radicalismo político chega ao auge com forte ataque por parte da imprensa, especialmente na capital do Brasil, o Rio de Janeiro. Há ameaça de investigação das denúncias de corrupção que envolvem Getúlio e sua família. Um deles é seu filho.

A gota d´água é o atentado contra o jornalista de oposição Carlos Lacerda, quando morre um major da aeronáutica que fazia a segurança dele.

Os militares se revoltam e tomam a base aérea do Galeão. Querem interrogar o irmão de Vargas. O vice-presidente, Café Filho, propõe que ambos renunciem.Vargas não aceita.

Continua após a publicidade

Há uma ameaça de confronto social. Ele opta pelo suicídio em 1954. Encontra uma saída, segundo ele, para as páginas da história do Brasil.

Sem saída

Estatal vai monopolizar a exploração e o refino do petróleo e fazer do Brasil um player importante no mercado mundial

Refinaria de Pasadena da Petrobras

Refinaria de Pasadena da Petrobras | Divulgação/Agência Petrobras

A popularidade do governo está derretendo. A lua de mel entre vencedor da eleição presidencial e a população dura apenas cem dias. Daí para frente, o presidente e seus ministros devem mostrar a que vieram. O que a população espera é que o atual governo torne a vida mais fácil e barata do que foi no passado. Para isso é necessário uma política de austeridade econômica que o presidente não está a fim de bancar, pois pode atingir a sua popularidade. Prefere mergulhar em grandes projetos que possam mobilizar a opinião pública a seu favor. Um deles é acabar de uma vez por todas com a variação dos preços dos combustíveis. Na alta, impacta diretamente o preço dos alimentos e dos transportes públicos nas cidades. O Brasil vive do faturamento internacional em dólar graças ao agronegócio, principalmente a exportação de café para Europa e Estados Unidos. A estatal sonhada por ele vai monopolizar a exploração e o refino do petróleo e fazer do Brasil um player importante no mercado mundial. Grupos privados são contrários à ideia e a crítica mais frequente é que ele quer ter mais um local para estacionar os seus aliados políticos.

Continua após a publicidade

Siga as notícias da Gazeta de S.Paulo no Google Notícias

A oposição se desdobra para desgastar principalmente o presidente. Afinal, ele é um líder popular testado em governos anteriores e o seu índice de aprovação sempre foi alto. O governo, ao se autointitular nacionalista, bate de frente com setores da burguesia industrial do país que representa o capital internacional investido no Brasil, inclusive em serviços essenciais, como energia elétrica, telefonia, bancos, comunicação, mineração, petróleo e transporte marítimo internacional. A esquerda o apoia porque entende que é um momento decisivo para brecar a influência do capital estrangeiro no Brasil e fortalecer um embate contra os Estados Unidos, acusado pelos líderes sindicais e políticos de praticar o imperialismo. O retrato político do momento é que há um embate ideológico entre esquerda e direita e isso contamina as instituições públicas e privadas. Há quem tema pelo pior, que o governo se coloque contra as cordas e fique sem saída política.

O presidente está cercado de todos os lados. Não tem o conforto que tinha quando governou o país. A bandeira nacionalista de intervenção do Estado na economia, a criação de  empresas estatais e o decreto de aumento do salário-mínimo esbarraram na oposição liberal. O setor industrial apoia abertamente a oposição. Os partidos conservadores no Congresso se unem e passam a acusar o governo de corrupto. Só um jornal da capital da República defende o governo, os demais o atacam diariamente. A Última Hora é suspeita de ter se locupletado de financiamento estatal e por isso está ao lado de Getúlio Vargas. A bandeira do nacionalismo econômico levantada por ele tem o apoio dos sindicatos e por isso é acusado de querer instalar nova ditadura, como a que ele liderou de 1937 a 1945. Há uma grave polarização política entre esquerda e direita e o acirramento da disputa se aprofunda. O grupo do palácio presidencial é acusado de um atentado contra o líder opositor Carlos Lacerda, o que deixa morto o major Vaz, da Aeronáutica. Esta exige que Vargas e seu irmão sejam levados para interrogatório na base aérea do Galeão. O Exército, que no passado tanto o apoiou, está dividido. O vice, Café Filho, propõe que ambos peçam afastamento. Vargas diz que só sai do palácio morto. Admite que há um lamaçal de corrupção sob o palácio do governo e que envolve a própria família do presidente e seu filho. Vargas pede para um assessor escrever uma carta testamento e se suicida em 1954.

Continua após a publicidade

Faça parte do grupo da Gazeta no WhatsApp e Telegram.
Mantenha-se bem informado.

*Heródoto Barbeiro é jornalista da R7 e Novabrasil às 7h30min (89.7), além de autor de vários livros de sucesso, tanto destinados ao ensino de História, como para as áreas de jornalismo, mídia training e budismo. Apresentou o Roda Viva da TV Cultura e o Jornal da CBN. Mestre em História pela USP e inscrito na OAB. Acompanhe-o por seu canal no YouTube “Por dentro da Máquina”, clicando no link https://www.youtube.com/channel/UCAhPaippPycI3E1ZRdLc4sg