Para os fãs e aficionados por vinhos, e para quem não se limita ao tradicionalismo e desbrava novos terroirs, Brasília é a nova aposta. Digo isso visando o público que acredita que apenas o Velho Mundo produz bons vinhos, limitando-se a degustar apenas vinhos franceses, italianos e portugueses. Para aqueles que se aventuram provando vinhos pelo mundo, ainda há muito o que se desbravar. Desde o terroir e a castas diferentes, a diferentes métodos de produção.
Há uns 10 anos, eu jamais imaginaria que em pleno cerrado seria possível produzir vinhos. Como foi uma surpresa para mim provar um baita vinho chamado Intrépido, produzido aqui pertinho, em Cocalzinho de Goiás. Dali em diante, pensei que tudo poderia ser possível.
Não tardou muito para que um grupo de dez famílias amigas e vizinhas se reunissem pela congruente paixão pelo vinho, para produzirem vinhos individualmente, e destinarem parte da produção para um único núcleo, a Vinícola Brasília. A união trouxe força para os produtores, e novos aromas, sabores, corpo, taninos, frescor e orgulho, em forma de vinho, para nós brasilienses.
As vinícolas envolvidas nesse projeto fascinante e inédito, que começou há uns 5 anos, são os vinhedos Casa Vitor, Oma Sena, Vista da Mata, Hartos, Horus, Ercoara, Miro, Toscana do Cerrado, Villa Triacca Eco Pousada e Vinhos, e Marchese. Todas acreditando e aplicando alto em um sonho em meio ao cerrado. São mais de 20 milhões em investimentos, estudos e parcerias com a Embrapa. Agora em 2023, a Vinícola Brasília está quase pronta para receber os degustadores e amantes de vinho. Agora a pergunta que sempre povoa a cabeça dos apreciadores de vinho; “Como é possível produzir vinhos frescos ou potentes em meio ao cerrado? Com colheita de inverno! Dupla poda. Sistema de cultivo que inverte o ciclo da videira”.
Como funciona a dupla poda ou colheita de inverno?
Vindima significa colheita da uva. Em vários lugares do mundo ela se dá entre fevereiro e maio, variando de acordo com o ano, o clima e o objetivo do enólogo.
Antes de falar da dupla poda, é importante entender que a videira tem estágios ou ciclos. Os ciclos da videira são divididos em cinco fases: dormência, brotação, floração, crescimento dos bagos e maturação. Cada uma delas possui uma particularidade essencial para o desenvolvimento da uva e a criação do vinho. Após a dormência, e antes da brotação, ocorre a poda.
O melhor período para a poda no cerrado é por volta do mês de agosto, por ser final do inverno, época em que as plantas ainda estão dormentes e já se preparando para brotar em breve. No verão brasiliense chove muito e isso acarretaria danos a uvas, que sofreriam com fungos, excessos de absorção de água, e perderiam componentes que são essenciais para um vinho de qualidade, como casca mais grossa, açúcar, entre outros. Aí toma forma a ideia da dupla poda.
O professor Murilo Albuquerque Regina, sócio do Grupo Vitácea Brasil, desenvolveu a técnica de dupla poda no sul de Minas Gerais, enquanto era pesquisador na EPAMIG Caldas. A técnica consiste na inversão do ciclo da videira. Visando à produção de uvas viníferas durante o período de outono-inverno, a dupla poda é uma alternativa para ajustar o ciclo da videira para o melhor momento de colheita da uva. Com a inversão do ciclo, a colheita se dá por volta do mês de agosto e setembro e, por isso, colheita de inverno! Essa mesma técnica tem sido usada atualmente em Minas Gerais, São Paulo e agora no nosso querido cerrado.
A poda de frutificação, ou produção, prepara a videira para a safra seguinte, eliminando sarmentos mal localizados ou fracos, deixando apenas as plantas com os esporões desejados e limitando a carga de gemas ao máximo que se deseja de produção da videira, melhorando assim a qualidade das uvas produzidas. A poda de renovação é quando precisamos fazer um corte mais abrupto, maior, pois pode ter havido alguma doença, pragas, granizos.
A poda de inverno ou poda seca é a poda de produção, porque depois dela vem a formação de brotos – é quando se conduz a produção e formação de ramos. Faz-se a poda seca para conduzir a produção do próximo ciclo. Graças a tudo isso temos vinhos no cerrado! Vinhos de qualidade e um mundo a ser desbravado.
(*) Artigo escrito pela sommelière e enófila Ana Wine, Ela declara “prazer pleno em estudar e degustar vinhos”, e prontamente aceitou o convite da coluna Direto de Brasília.
