Desenvolvimento com envolvimento

Abro a coluna convidando o leitor e a leitora para uma reflexão sobre dois modos de relacionar cultura e economia

Há que se reconhecer o incentivo à cultura como investimento, e não um mero gasto

Há que se reconhecer o incentivo à cultura como investimento, e não um mero gasto | Leonhard_Niederwimmer / Pixabay

Abro a coluna convidando o leitor e a leitora para uma reflexão sobre dois modos de relacionar cultura e economia. Em um deles, a produção cultural é atendida por mecanismos de financiamento decorrentes do processo econômico. Em outro, a situação é aparentemente inversa: essa produção se mostra capaz de induzir o desenvolvimento econômico e social, complexificando-o. Essas modalidades, em vez de se excluírem, podem ser consideradas complementares.

Continua após a publicidade

Caberia nos perguntarmos, primeiramente, a respeito do cerne das práticas culturais – entendidas como expressões materiais, simbólicas e imaginativas do viver junto em dado contexto. Me refiro à disposição para inventar formas e soluções em diálogo propositivo com realidades que trazem desafios e oportunidades. Mais especificamente, falo do poder de criação e da sua vocação para qualificar a existência. 

Concebo a criação cultural como um ativo da vida coletiva. Como tal, ela precisa ser estimulada pelas diferentes esferas da sociedade, numa lógica de corresponsabilização e incentivo àquilo que nos permite escapar à estagnação e vislumbrar outros possíveis.

Portanto, para servir de alavanca de desenvolvimento, antes a cultura carece ser respaldada, inclusive para conseguir apontar caminhos para a economia.

Continua após a publicidade

Neste ponto, uma distinção se faz útil: enquanto os elementos da cultura têm valor em si mesmos, na economia os bens funcionam como meio. Assim, contrastando com a instrumentalização dos recursos adotada pela economia, a cultura sugere uma perspectiva que trata as manifestações criativas e seus objetos como finalidade, com a experiência se dando na chave da fruição, não da troca. O envolvimento, aqui, é determinante.

Num mundo em que as relações econômicas precisam responder às necessidades das populações, melhorando suas condições de vida – lembremos a economista Maria da Conceição Tavares dizendo que “ninguém come PIB” –, a cultura revela-se um paradigma para o sistema produtivo.

Suas dimensões criadora e colaborativa conferem concretude ao “valor de uso”, calcado no gozo contextualizado dos bens. Basta evocar, como exemplos, o Carnaval, o Turismo de Base Comunitária e os Pontos de Cultura. 

Continua após a publicidade

A criação cultural demonstra que a geração de valor de interesse público resulta de fatores territorialmente situados, ali tecidos e desfrutados. Nela, números e cálculos se processam conforme as exigências das pessoas e comunidades. O ambicionado “desenvolvimento” requer, por esse viés, grande dose de envolvimento, com a responsabilidade e a solidariedade fazendo parte de nossas prospecções como país, na linha do pensador quilombola Antônio Bispo.   

A produção de riqueza deve combinar os valores de troca e de uso com equilíbrio, evitando que equivalências mercantis desconsiderem singularidades socioculturais. Por essa ótica, prosperar significaria guiar a produção e o consumo em conexão com o bem viver – o que implica fortalecer a cidadania, encorajar a atuação coletiva e garantir a sustentabilidade.   

Até porque a Terra dá sinais de seus limites. A noção de “recurso” está em crise, o que configura ensejo para repensarmos nossa lida com os bens – naturais, materiais, simbólicos. Quando a cultura a que me refiro ajuda a inspirar relações econômicas, os objetivos sociais e ambientais tendem a vigorar com maior equidade.

Continua após a publicidade

Por esses motivos, há que se reconhecer o incentivo à cultura como investimento, e não um mero gasto. Se as práticas culturais – propiciadoras que são de envolvimento – se apresentam como precondição para a transformação econômica e social, cabe encampá-las como forças favoráveis ao advento de futuros alternativos.