Como lidar com quem te inveja e tenta te prejudicar

Entenda o conceito de inveja maliciosa segundo a psicologia e a psicanalise, e saiba por que voce nunca deve diminuir suas conquistas para caber no outro

5. 'Enquanto estiver morando debaixo do meu teto': Frase capaz de encerrar qualquer discussão em menos de cinco segundos. Não existia argumento depois dela. Como usar no Dia das Mães: 'Debaixo do seu teto eu aprendi regras, respeito e que a palavra final realmente era sua' (Foto: Magnific)

Ninguém deveria precisar fracassar para que outra pessoa consiga suportar a própria vida. Foto: Magnific

A inveja nem sempre quer aquilo que o outro tem. Às vezes, ela quer assistir o outro perder. E talvez a parte mais difícil de ser alvo dela seja não começar a diminuir a própria vida para se sentir seguro.

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Existe uma sensação particularmente desagradável que é difícil explicar sem parecer arrogante: perceber que alguém não gosta de você, mas também não consegue parar de olhar para você.

Observa o que você faz. Com quem anda. Como se veste. O que publica. O que conquistou. Onde trabalha. Como fala. O relacionamento que tem. A forma como se posiciona. Às vezes reproduz. Às vezes critica. Às vezes faz as duas coisas.

E, em determinado momento, nasce uma sensação ainda pior: a de que aquela pessoa não gostaria apenas de ter alguma coisa parecida com aquilo que você tem. Ela gostaria de ver você perder. Talvez seja aqui que a conversa sobre inveja precise começar.

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Não naquela versão infantil de “fulano tem inveja de mim”, usada muitas vezes para desqualificar qualquer crítica. Mas na pergunta muito mais desconfortável: o que acontece quando a dor que alguém sente diante da nossa vida começa a produzir comportamentos contra nós?

A psicologia já demonstrou que inveja não é uma emoção simples. Em 2018, Jens Lange, Aaron Weidman e Jan Crusius chegaram a uma teoria depois de cinco estudos com 1.237 participantes. No centro da inveja encontraram duas coisas especialmente importantes: sensação de inferioridade e uma preocupação recorrente com aquilo e com quem provocou a comparação.

Dessa dor podem nascer dois movimentos. Um deles é: “quero chegar lá também”. O outro é: “quero que ele deixe de estar lá”.

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É a diferença entre a inveja que pode estimular emulação e crescimento e a inveja maliciosa, associada a hostilidade e agressão dirigida à pessoa invejada. Na mesma pesquisa, a relação com o prazer diante do infortúnio alheio, aquilo que os alemães chamam de schadenfreude, foi mais forte justamente quanto mais maliciosa era a inveja medida.

Isso explica uma contradição que muita gente já viveu: como alguém pode copiar e atacar a mesma pessoa?

Pode. Porque talvez não esteja copiando você. Está tentando diminuir a distância psicológica que sente entre vocês. Se não consegue subir, pode tentar puxar. Se não consegue possuir, pode desqualificar. Se não consegue deixar de comparar, pode continuar olhando. É por isso que a indiferença quase nunca exige vigilância.

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No trabalho isso aparece de formas muito menos cinematográficas e, justamente por isso, mais perigosas. É o colega que fazia elogios até você ser promovido. O chefe que dizia querer profissionais brilhantes até um funcionário começar a brilhar mais do que ele. O sócio que era parceiro enquanto os dois recebiam o mesmo reconhecimento. O concorrente que acompanha cada movimento da sua empresa, reproduz estratégias e depois tenta convencer o mercado de que aquilo que você construiu nunca teve valor.

Uma meta-análise sobre inveja no ambiente profissional reuniu 68 estudos e 15.252 participantes. Os resultados relacionam a inveja no trabalho a fenômenos como ostracismo, incivilidade, enfraquecimento social e comportamentos contraproducentes. Ou seja: em determinados contextos, inveja não fica apenas dentro de quem sente. Ela atravessa a relação.

E talvez essa seja a parte que mais assuste quem já esteve do outro lado. Porque o problema não é alguém achar seu trabalho bom. É perceber que o seu bom trabalho se transformou em ameaça para alguém.

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Nas amizades, a violência é mais íntima. Existe aquela amizade que funciona maravilhosamente enquanto ninguém muda muito de lugar. Vocês reclamam juntas, ganham parecido, têm problemas parecidos, vivem fases semelhantes. Até que uma cresce.

É promovida. Ganha dinheiro. Emagrece. Casa. Se separa e fica mais feliz. Encontra alguém. Viaja. Abre uma empresa. Começa a receber atenção. Muda de círculo. Torna-se mais segura.

E alguma coisa muda na relação. A alegria pelas suas vitórias começa a vir acompanhada de pequenas perfurações. “Também não é tudo isso.” “Você teve sorte.” “Quero ver quanto tempo dura.”

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Não é uma agressão grande o suficiente para ser confrontada. É pequena o suficiente para fazer você duvidar se percebeu. Talvez seja justamente assim que muita hostilidade funciona: não como uma facada, mas como centenas de alfinetes.

Na família, aprendemos outro ritual: esconder as coisas boas.

Tem gente que aprendeu a contar uma promoção diminuindo o próprio mérito. A não dizer quanto ganhou. A não mostrar a viagem. A não falar que o relacionamento está feliz. A entrar numa reunião de família quase pedindo desculpas porque a própria vida melhorou.

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Não por humildade. Por autoproteção. Porque conhece o preço emocional de parecer feliz demais diante das pessoas erradas.

Nas relações amorosas, a comparação pode adquirir outra forma. A atual que monitora a ex. A ex que não consegue parar de observar a atual. O homem que acompanha obsessivamente aquele que considera rival. A mulher que começa a estudar outra mulher como se nela estivesse escondida a resposta para a própria insegurança.

Como ela se veste? O que ele viu nela? Ela é mais bonita? Ganha mais? Está melhor? Ele ainda olha? No fundo, às vezes a outra pessoa deixou de ser uma pessoa. Virou uma régua.

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E as redes sociais entregaram à inveja uma ferramenta que nenhuma geração anterior teve nessa escala: acesso permanente ao objeto da comparação.

Uma meta-análise publicada neste ano reuniu 54 amostras independentes, somando 36.583 participantes. Quanto maior a comparação social ascendente nas redes olhar para pessoas percebidas como estando melhor maior, em média, a associação com dificuldades psicológicas. A relação foi particularmente forte para emoções negativas ligadas à avaliação social, categoria que inclui fenômenos como inveja e insatisfação diante da comparação.

Antes era preciso conviver com alguém para saber como a vida dele estava. Hoje é possível terminar um relacionamento sem terminar o acesso. Acabar uma amizade sem parar de assistir. Odiar alguém sem perder um único story.

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A psicanálise talvez tenha uma das explicações mais perturbadoras para tudo isso.

Melanie Klein entendia a inveja não apenas como desejar algo bom que pertence ao outro, mas como a raiva diante do fato de que o outro possui e desfruta algo considerado desejável, podendo vir acompanhada do impulso de tomar ou estragar aquilo.

Essa diferença é brutal. Não é apenas: “eu queria ter”. É: “me incomoda que você tenha”.

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E talvez daí venha a necessidade tão comum de destruir simbolicamente aquilo que primeiro foi reconhecido como valioso.

“Ela nem é bonita.” “Ele nem é inteligente.” “A empresa não é tudo isso.” “O relacionamento deles é fachada.” “Ela só conseguiu porque conhece fulano.”

É uma tentativa de resolver a dor não aumentando o próprio valor, mas reduzindo o valor atribuído ao outro.

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Freud nos ajuda a enxergar nisso uma dimensão narcísica. Existem conquistas alheias que funcionam como feridas porque atingem justamente a imagem que gostaríamos de sustentar sobre nós mesmos.

Lacan vai além. Na relação com o semelhante, identificação e rivalidade podem andar perigosamente próximas. Parte da construção do eu acontece diante da imagem do outro; por isso aquele que funciona como referência também pode se tornar ameaça. Há leituras da teoria lacaniana que relacionam diretamente essa identificação narcísica à agressividade e à concorrência com o semelhante.

Talvez seja por isso que algumas pessoas nos irritem sem nunca terem feito nada contra nós. Elas simplesmente representam alguma coisa que gostaríamos de possuir.

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Recentemente comecei a observar esse fenômeno de maneira muito mais próxima na minha própria vida. Pessoas acompanhando excessivamente aquilo que faço, reproduzindo conteúdos, referências, formas de comunicação e movimentos enquanto, paradoxalmente, mantêm uma postura hostil em relação a mim.

E descobri que a sensação de ser invejada não é agradável. Não alimenta meu ego. Me dá raiva.

Porque existe algo profundamente injusto em perceber que você pode se tornar alvo não pelo mal que fez a alguém, mas justamente pelas coisas boas que construiu para si. Você pensa: eu fiz o quê para essa pessoa? Às vezes, nada. E talvez seja exatamente isso que doa.

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Perceber que não existe comportamento seu capaz de resolver uma batalha que começou dentro do outro. Então você passa a observar também.

Será que vão falar de mim? Vão copiar de novo? Vão tentar interferir no meu trabalho? Vão distorcer alguma coisa? Vão tentar prejudicar minha reputação?

E é aqui que a inveja alheia pode começar a produzir sua maior violência: fazer quem é alvo viver olhando por cima do ombro.

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Um estudo com 630 trabalhadores encontrou relação entre perceber-se como alvo da inveja no ambiente profissional, comportamentos de enfraquecimento social e maior ruminação interpessoal. Ou seja, o problema pode continuar acontecendo mentalmente mesmo depois que a interação terminou. Eu reconheço essa dor.

É cansativo perceber que alguém pensa demais em você e descobrir que, por consequência, você começou a pensar demais nessa pessoa também. É assim que a prisão se fecha. A pessoa observa você. Você percebe. Depois começa a observar se ela está observando. E, de repente, duas vidas passam a ser organizadas em torno da mesma obsessão.

É aí que precisamos parar. Não significa tratar qualquer crítica como inveja. Isso seria narcisismo. Não significa chamar qualquer coincidência de cópia.

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E quando existe ameaça, perseguição, difamação, invasão de privacidade ou tentativa concreta de prejuízo, não cabe filosofia: cabem limites, registros e proteção. Mas existe uma coisa que não podemos entregar. O direito de continuar vivendo sem pedir desculpas. Não esconder uma conquista para proteger a autoestima de alguém. Não diminuir uma vitória para não provocar ressentimento.

Não ficar menos bonita, menos ambiciosa, menos feliz, menos apaixonada, menos inteligente ou menos visível para parecer menos ameaçadora. Porque existe algo perverso em ser punido pelas coisas boas da própria vida. E existe algo ainda mais perverso em começar a se punir antes que os outros façam isso.

Talvez essa seja a verdadeira maneira de lidar com quem nos inveja: compreender que o sentimento pertence ao outro, estabelecer limites sobre aquilo que ele pode fazer conosco e se recusar a transformar a própria vida em tratamento para a insegurança alheia. Porque o mais doloroso na inveja não é descobrir que alguém deseja aquilo que temos. É descobrir que, às vezes, a nossa perda faria essa pessoa se sentir melhor. E a resposta para isso não pode ser perder voluntariamente. Não pode ser desaparecer. Não pode ser viver menor.

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Ninguém deveria precisar fracassar para que outra pessoa consiga suportar a própria vida.