Como lidar com quem vira outra pessoa quando o assunto é política

Discussões políticas podem afetar relações familiares durante a eleição; veja como ouvir, estabelecer limites e preservar os vínculos no almoço de domingo

5. 'Enquanto estiver morando debaixo do meu teto': Frase capaz de encerrar qualquer discussão em menos de cinco segundos. Não existia argumento depois dela. Como usar no Dia das Mães: 'Debaixo do seu teto eu aprendi regras, respeito e que a palavra final realmente era sua' (Foto: Magnific)

Opinião sobre candidato, sobre economia, sobre o que vai acontecer no ano que vem, é opinião, e opinião se administra com silêncio e paciência. Foto: Magnific

Domingo você vai almoçar com uma pessoa que conhece há vinte anos e que, nos últimos dois meses, parou de reconhecer. Ela é generosa, inteligente, ri das mesmas coisas que você, te ligou quando você estava mal. Até alguém mencionar a eleição. Aí a voz muda, o rosto muda, o vocabulário muda, e no lugar da pessoa que você ama aparece uma outra, repetindo frases que não são dela com uma certeza que ela não tem sobre mais nada na vida. Você traz o dado, o contexto, a fonte.

Continua após a publicidade

Ela responde com a frase que ouviu num vídeo. Você insiste, com calma, porque você é alguém que lê, que estuda, que se preparou. Ela levanta a voz. E você sai da conversa com a sensação mais estranha de outubro: a de que perdeu alguém que continua sentado na sua frente.

Metade do Brasil já passou por isso e não aguentou. Uma pesquisa de junho mostrou que 52,7% dos brasileiros já romperam com alguém por causa de política. Não é um dado sobre política. É um dado sobre almoços que acabaram, grupos de família silenciados, padrinhos que não foram ao batizado.

A outra metade está engolindo, e vai sentar à mesa neste domingo, de véspera, ensaiando no banho o argumento que finalmente vai fazer a pessoa enxergar.

Continua após a publicidade

Não vai. E entender por que não vai é a única coisa que pode salvar o seu domingo.

A pessoa que vira outra quando o assunto é eleição não está defendendo um candidato. Está defendendo quem ela é. Em algum momento dos últimos anos, o voto deixou de ser uma escolha e virou uma identidade. Não foi culpa dela, nem sua. Foi a arquitetura da conversa pública, que passou a premiar a certeza e punir a dúvida, que entregou a cada um um feed feito sob medida para confirmar o que já pensava, e que transformou “em quem você vota” em “quem você é”. E identidade não se discute com dado.

Quando você apresenta o argumento perfeito, ela não ouve uma informação. Ouve um ataque à própria pessoa, e reage como qualquer um reage quando se sente atacado: endurece, simplifica, repete mais alto. Ninguém entrega quem é por causa de uma planilha sua.

Continua após a publicidade

Dale Carnegie escreveu isso em 1936, no capítulo mais ignorado do livro mais vendido sobre relações humanas. Não existe vencer uma discussão. Se você perde, perdeu. Se ganha, o outro sai humilhado, ressentido e mais convencido do que entrou. Ninguém, na história da humanidade, mudou de voto porque perdeu uma discussão no almoço.

Quando muda, muda porque alguém que respeita pensou diferente sem humilhá-la. Você pode ser esse alguém. Só não neste domingo.

Karl Popper deixou um teste simples para saber se vale a pena discutir alguma coisa.

Continua após a publicidade

Uma ideia só é séria se existe algo que poderia provar que ela está errada. Se nada no mundo faria a pessoa mudar de posição, ela não tem uma ideia. Tem uma fé. E fé não se discute na mesa de almoço, porque não foi construída com argumento e não vai ser desmontada por um. Então, antes de gastar o seu repertório, uma pergunta, feita com curiosidade e não com ironia: o que te faria mudar de ideia? Se vier uma resposta, qualquer resposta, existe conversa, e ela pode ser a melhor do ano. Se vier “nada”, acabou, e você acabou de economizar a tarde.

O erro de quem tem repertório é achar que o argumento basta. Argumento só funciona em quem quer ser convencido, e no domingo de véspera ninguém quer.

A pessoa inteligente perde o domingo porque confunde ter razão com ser ouvida. São coisas diferentes, e a segunda exige o que a primeira dispensa: tempo. Quem tem poder numa família não é quem vence a discussão. É quem decide quais discussões vão existir.

Continua após a publicidade

E a frase, quando a provocação vier, é uma só: “Eu penso diferente, e a gente continua aqui.” Dita com calma, olhando nos olhos, sem explicação depois. A primeira parte sustenta a sua posição, porque você não vai fingir que concorda. A segunda sustenta a relação, porque você não vai embora. Não é covardia. É a única jogada que preserva as duas coisas que importam. Depois disso, muda de assunto e passa o arroz.

Domingo a urna decide o país. O almoço decide a sua família. Só um dos dois você controla.

Stuart Mill escreveu em 1859, em Sobre a Liberdade, que quem conhece só o próprio lado de uma questão conhece pouco até dele. Ele não estava pedindo que você concorde.

Continua após a publicidade

Estava dizendo que, sem ouvir o outro, você nem entende direito a própria opinião. Isso vale para a pessoa da sua frente, e vale para você. Repare que a pergunta de Popper serve nas duas direções: se alguém te perguntar o que te faria mudar de ideia e a sua resposta também for “nada”, a pessoa que virou outra quando o assunto é eleição talvez não seja só a da sua frente. Quem bloqueia o tio não está protegendo a própria opinião. Está empobrecendo ela. A inteligência não se mede pela capacidade de vencer quem pensa diferente. Mede-se pela capacidade de ouvir até o fim sem precisar vencer.

Então, na prática, três coisas.

Ouve até o fim. Inteiro, sem a cara de quem já sabe a resposta, sem o suspiro, sem o olhar para o lado procurando aliado. A pessoa que vira outra quando o assunto é eleição está, no fundo, pedindo uma coisa só: que alguém a escute sem tentar consertá-la. Dar isso não é concordar. É a forma mais rara de respeito que existe hoje, e ela percebe, mesmo que não diga.

Continua após a publicidade

Separa opinião de dano. Opinião sobre candidato, sobre economia, sobre o que vai acontecer no ano que vem, é opinião, e opinião se administra com silêncio e paciência. Ofensa à sua pessoa, ao seu caráter, à sua família, isso não é política, é desrespeito, e desrespeito se encerra, não se discute. A maioria das mesas quebra porque alguém confundiu as duas coisas, e respondeu a uma opinião como se fosse dano, ou engoliu um dano como se fosse opinião.

Decide antes de sentar. Quanto tempo você fica, o que você conta, em que momento você levanta. Quem chega à mesa sem ter decidido isso deixa a pessoa mais exaltada decidir por ela. Quem chega decidido não precisa vencer nada, porque já sabe como a tarde termina.

E lembra, antes de sentar, de uma coisa que ninguém diz: a pessoa que virou outra também acha que foi você que mudou. Ela também sente que perdeu alguém que continua ali. Os dois lados da mesa estão com a mesma dor, com sinais trocados, cada um esperando que o outro volte primeiro.

Continua após a publicidade

Em novembro, a pessoa que você conhece há vinte anos vai estar de volta. Vai lembrar de quem não a tratou como inimiga na semana em que todo mundo tratou. E quando a próxima eleição chegar, e ela chega, vocês ainda vão ter uma mesa. Isso é comunicação. O resto é barulho.