Como lidar com uma sociedade que está emburrecendo politicamente

Toda eleição escolhe um presidente; mas também revela o tamanho do repertório e da inteligência de um povo

Enquanto chefes do Executivo têm limite de duas gestões seguidas, parlamentares podem se candidatar sem restrições / Gabriela Biló/Folhapress

Daqui a algumas semanas, o Brasil entrará oficialmente em campanha eleitoral. Foto: Gabriela Biló/Folhapress

Daqui a algumas semanas, o Brasil entrará oficialmente em campanha eleitoral. E, como acontece a cada quatro anos, milhões de brasileiros voltarão a perder amigos, discutir com familiares, abandonar grupos de WhatsApp e transformar qualquer conversa em um campo de batalha.

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Talvez o maior problema das eleições nunca tenha sido apenas escolher um presidente. Talvez seja descobrir, a cada novo ciclo eleitoral, que boa parte da sociedade perdeu a capacidade de pensar, argumentar e fazer escolhas.

Existe uma sensação estranha que muita gente passou a experimentar nos últimos anos: o silêncio. Não porque deixou de se interessar por política, mas porque percebeu que, na internet, pensar antes de falar virou quase uma desvantagem.

Em um ambiente onde toda crítica é interpretada como ataque e todo elogio como militância, talvez o maior risco seja justamente tentar ser honesto.

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A internet se tornou um lugar hostil para discutir política porque deixou de ser um espaço de conversa. Passou a ser um espaço de julgamento. Já não perguntamos “o que você quis dizer?”. Perguntamos “de que lado você está?”.

E, quando uma sociedade deixa de fazer perguntas para começar a distribuir rótulos, o silêncio deixa de ser omissão. Passa a ser uma forma de sobrevivência intelectual.

Talvez a maior pobreza política de uma sociedade não esteja na escolha de um candidato específico, mas na perda da capacidade de reconhecer um bom argumento. Democracias maduras não dependem apenas de bons líderes.

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Dependem de cidadãos capazes de ouvir, interpretar, questionar e até mudar de ideia quando os fatos exigem.

Existe uma diferença enorme entre convencer alguém e apenas derrotá-lo em uma discussão. Convencer exige repertório. Derrotar, muitas vezes, exige apenas um bom apelido, uma ironia bem colocada ou uma frase de efeito.

Talvez seja por isso que os debates presidenciais tenham deixado de parecer uma conversa sobre o futuro do país para se tornarem uma disputa por quem produzirá o melhor momento da noite.

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Esperamos quatro anos para decidir o destino de uma nação e, no dia seguinte, o assunto raramente é a proposta mais consistente. É quem “jantou” quem. Aos poucos, deixamos de admirar argumentos e passamos a admirar performances. Transformamos o debate público em circo e, depois, estranhamos que ele tenha se tornado superficial.

Essa percepção encontra respaldo na ciência. Um estudo que analisou cerca de cinco milhões de publicações feitas por mais de 2.300 influenciadores políticos brasileiros durante as eleições de 2022 mostrou que, conforme a campanha avançava, aumentavam os ataques pessoais enquanto diminuía a qualidade do debate público.

A pesquisa apenas deu nome ao que qualquer cidadão atento já percebia: estamos cada vez mais preparados para atacar pessoas e cada vez menos dispostos a enfrentar ideias.

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Parte desse comportamento pode ser explicada por um dos vieses cognitivos mais estudados da psicologia: o viés de confirmação. Em vez de buscarmos informações para testar aquilo em que acreditamos, passamos a selecionar apenas aquilo que confirma nossas convicções.

Aos poucos, deixamos de usar a política para compreender a realidade e passamos a utilizá-la para proteger nossa identidade. O debate deixa de ser uma investigação coletiva da verdade e se transforma em uma disputa entre torcidas.

Foi Voltaire quem escreveu uma das frases mais importantes da história da democracia: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las.”

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Séculos depois, parece que evoluímos tecnologicamente, mas regredimos intelectualmente. Hoje, muitas vezes, já não defendemos nem o direito de o outro concluir um raciocínio. Respondemos antes de compreender porque deixamos de entrar em uma conversa para aprender. Entramos para vencer.

Toda eleição escolhe um presidente. Mas também revela o tamanho do repertório e da inteligência de um povo. Porque governos passam. O que permanece é a cultura que os escolhe.