Existe uma pergunta que mulheres que são mães e trabalham escutam com uma frequência curiosa: “Como você consegue conciliar maternidade e carreira?”
Quando pensei neste título, percebi que talvez o primeiro problema esteja justamente na pergunta.
Por que maternidade e trabalho são tratados como duas forças naturalmente opostas que uma mulher precisa passar a vida tentando equilibrar? E por que ainda esperamos que exista uma fórmula capaz de fazer tudo caber perfeitamente?
Talvez porque tenhamos transformado “dar conta de tudo” em uma espécie de medida de competência feminina.
É preciso ser uma profissional excelente, uma mãe presente, cuidar da família, dos relacionamentos, da saúde, lembrar da reunião da escola, do aniversário, do uniforme, cumprir os compromissos profissionais e, de preferência, fazer tudo isso sem demonstrar cansaço.
Só de escrever já cansa.
Mas a sensação de sobrecarga não existe apenas na cabeça das mulheres.
Segundo dados do IBGE, em 2022, as mulheres brasileiras dedicavam, em média, 21,3 horas por semana aos cuidados de pessoas e aos afazeres domésticos. Entre os homens, eram 11,7 horas. São quase dez horas semanais de diferença em um trabalho que acontece antes, durante e depois do expediente. (Educa IBGE)
O mercado de trabalho também estuda um fenômeno conhecido como “penalidade da maternidade”.
Pesquisas da FGV mostram que a chegada dos filhos ainda produz efeitos diferentes sobre a trajetória profissional de homens e mulheres. A maternidade pode representar perda de participação no mercado, redução de oportunidades e impacto na renda feminina. Para os homens, a condição de ter filhos não produz necessariamente o mesmo efeito e pode, em alguns contextos, estar associada a resultados profissionais positivos. (FGV IBRE)
Ou seja: quando uma mulher diz que está cansada tentando fazer tudo caber, talvez o problema não seja simplesmente falta de organização.
Existe uma vida inteira para administrar. E existe ainda uma cobrança mais silenciosa: a culpa.
Se trabalha demais, deveria estar mais com os filhos. Se decide ficar com os filhos, talvez esteja deixando uma oportunidade profissional passar. Se viaja, sente culpa por ir. Se não viaja, pensa no compromisso que recusou.
É uma conta impossível de fechar quando a expectativa é estar disponível para tudo, o tempo inteiro, sem frustrar ninguém. Talvez, então, conciliar maternidade e trabalho não seja encontrar equilíbrio. Talvez seja aprender a fazer escolhas.
Eu precisei de alguns anos para entender isso. Há 13 anos me tornei mãe e, praticamente nesse mesmo período, comecei a construir a minha trajetória como empresária. De certa maneira, minha empresa e meus filhos cresceram juntos.
E eu também cresci com eles. Vivi ao mesmo tempo dois sonhos que sempre foram muito importantes para mim: construir uma família e construir minha carreira. Durante esse processo, descobri que eles podem, sim, caminhar juntos.
Mas não sem escolhas, renúncias, improvisos e uma boa quantidade de mudança de planos no meio do caminho.
Existem dias em que o trabalho exige mais de mim. Há reuniões que não podem esperar, decisões importantes, viagens, eventos e aquela clássica mensagem que chega justamente quando eu finalmente achei que tinha organizado a semana inteira.
E existem dias em que são meus filhos que precisam que todo o resto espere.
Tem apresentação na escola, aniversário, conversa no fim do dia, nosso momento de rezar, noite de jogos ou simplesmente aquela percepção de mãe de que, naquele dia, estar perto importa mais.
Já precisei reorganizar uma agenda inteira e ligar para minha irmã perguntando: “Pelo amor de Deus, você consegue buscar as crianças na escola hoje?” Acontece.
E foi vivendo essas situações que entendi uma coisa importante: escolher uma prioridade naquele momento não significa amar menos a outra parte da minha vida.
Também aprendi que existe uma palavra fundamental quando falamos sobre mulheres, carreira e maternidade: rede. Eu tenho a minha.
Tenho meu marido, minhas irmãs, meus cunhados, meus pais e as pessoas que trabalham comigo em casa. Tenho uma família com quem posso dividir responsabilidades e uma estrutura que foi sendo construída ao longo dos anos.
E faço questão de dizer isso porque existe uma romantização perigosa da mulher que “dá conta de tudo sozinha”. Eu não dei.
E talvez uma das razões pelas quais consegui construir uma empresa enquanto criava meus filhos tenha sido justamente aprender que eu não precisava dar conta de tudo sozinha. Rede de apoio não diminui conquista. Rede de apoio é infraestrutura.
Em muitas conversas de bastidores, ouvi mulheres incríveis se perguntando se precisariam escolher entre realizar o sonho de serem mães e realizar o sonho de terem o próprio negócio. Eu entendo esse medo.
Mas talvez a pergunta não precise ser “qual sonho vou abandonar?”.
Pode ser: “qual estrutura eu preciso construir para que esses sonhos consigam coexistir?”
Porque ajuda não nos torna menos competentes. Delegar não nos torna menos mães. Dividir responsabilidades não diminui o amor que sentimos pelos nossos filhos.
Na verdade, a maternidade transformou profundamente a profissional que me tornei.
Depois dos meus filhos, passei a enxergar o tempo de outra maneira. Aprendi a priorizar melhor, delegar mais, tomar decisões com mais rapidez e perceber o que realmente precisa de mim e o que pode — e deve — ser feito por outras pessoas.
Aprendi também que nem tudo é urgente, embora algumas pessoas tenham um carinho especial por escrever “URGENTE” em mensagens que definitivamente poderiam esperar até amanhã.
A maternidade também mudou a maneira como lidero. Passei a olhar com mais atenção para as diferentes realidades das pessoas que trabalham comigo. Porque ninguém deixa a própria vida do lado de fora quando começa o expediente.
Por trás de cada profissional existe alguém sendo mãe, pai, filho, filha, cuidando de alguém, atravessando uma dificuldade, tentando realizar um sonho ou simplesmente administrando uma vida que não deixa de acontecer entre uma reunião e outra.
Isso não significa diminuir responsabilidade, ambição ou performance. Eu amo performance. Construí minha vida trabalhando.
Mas acredito cada vez mais que humanidade e excelência não são opostas. Talvez uma possa, inclusive, fortalecer a outra.
E existe outra descoberta que a maternidade me trouxe.
Durante muito tempo, o mercado discutiu os filhos quase sempre pelo que eles poderiam retirar da carreira de uma mulher: tempo, disponibilidade, mobilidade.
Pouco se fala sobre tudo o que a maternidade também pode desenvolver em uma líder.
Capacidade de priorizar. Flexibilidade. Gestão do imprevisível. Delegação. Paciência. Tomada de decisão sob pressão. E, principalmente, uma percepção muito mais clara de que não controlamos tudo.
Meus filhos cresceram vendo a mãe trabalhar, empreender, ir a eventos, palestrar, tomar decisões, enfrentar dificuldades, comemorar conquistas e começar novamente quando alguma coisa não saiu como eu esperava.
E sabe o que acho mais bonito nisso? Um dia percebi que isso também era maternidade.
Eles não precisam conhecer apenas a mãe que cuida. Podem conhecer a mulher que sonha, trabalha, lidera, erra, aprende e continua.
Talvez exista uma educação silenciosa acontecendo quando nossos filhos nos veem construir uma vida da qual gostamos.
Por isso, se hoje alguém me perguntasse como conciliar maternidade e trabalho, eu provavelmente frustraria quem espera uma receita pronta. Eu não tenho.
Tenho uma agenda que muda, uma família que me ajuda, uma empresa que amo, filhos que são a parte mais importante da minha vida e uma quantidade considerável de improviso no meio de tudo isso.
O que tenho é uma certeza que levei alguns anos para construir: Conciliar não é conseguir dar conta de tudo.
É entender o que precisa mais de nós em cada momento, aceitar que toda escolha carrega alguma renúncia e parar de transformar cada ausência em culpa.
Ser mãe nunca me obrigou a abandonar a mulher que sonhava em construir uma carreira. E ser empresária nunca diminuiu o tamanho do meu amor pelos meus filhos.
Talvez a verdadeira liberdade não esteja em descobrir como equilibrar perfeitamente todos os nossos sonhos.
Esteja em perceber que eles não precisam disputar espaço. Eles podem crescer juntos. Assim como os meus cresceram.
