O pouso do ‘disco voador’ na Vila Progresso

No dia 3 de março de 1955, a população local experimentou a sensação de viver uma grande expectativa por aquela que teria sido uma invasão marciana à cidade de Porto Feliz

Ilustração do notável artista plástico e designer gráfico porto-felicense Nilson Araújo

Ilustração do notável artista plástico e designer gráfico porto-felicense Nilson Araújo | Nilson Araújo

O dia 3 de março de 1955 foi uma quinta-feira cheia de sol na pacata e histórica cidade de Porto Feliz. Como era comum acontecer nos pequenos municípios brasileiros naquela época, a cidade amanheceu serena e tranquila, aguardando o costumeiro e estridente apito da velha sirene do Engenho Central, que diariamente anunciava o início de mais uma jornada de trabalho. A vida seguia a sua rotina de paz até que, no início da tarde, a quietude transformou-se em intensa agitação quando correu célere a notícia de que um disco voador havia pousado na Vila Progresso – então conhecida como Último Gole -, em terras de propriedade do Sr. João Bello.

Continua após a publicidade

Imaginem! Um disco voador havia pousado em Porto Feliz, num tempo em que a NASA ainda engatinhava com o projeto de suas viagens interplanetárias para colocar o homem na lua. Nessa época uma invasão marciana aterrorizava até mesmo o mais corajoso dos super-heróis terráqueos.

O alvoroço, obviamente, tomou conta da cidade e gerou grande preocupação entre os seus moradores. Os comentários eram os mais desencontrados possíveis e as narrativas iam surgindo de acordo com a imaginação de cada um. Afinal de contas a notícia que se espalhava era de que um objeto luminoso de estranhas e fantásticas proporções houvera aterrissado no local, e dele teriam saído quatro pavorosos “marcianos” que, amedrontados com o pouso forçado da nave espacial, fugiram em desabalada carreira pelo canavial adentro.

Completamente atônita a população começou a se movimentar. As mulheres fecharam suas casas. As escolas dispensaram os alunos. Os homens buscaram a proteção das armas para defenderem seus familiares. O medo de uma invasão extraterrestre apavorou Porto Feliz.

Continua após a publicidade

Afinal de contas os relatos eram no sentido de que o tal “disco voador” tinha um clarão avermelhado, soltava chispas de fogo com cheiro de enxofre e os ETs que fugiram pelo canavial, poderiam voltar a qualquer momento para atacar a cidade valendo-se de poderes e armamentos desconhecidos.

Influenciadas pelas primeiras informações as autoridades locais se reuniram imediatamente e uma comissão formada pelo Delegado de Polícia Dr. Armindo Beghini, pelo Vice-Prefeito Municipal Dr. Walter Castelucci e por pessoas de responsabilidade da sociedade local, dirigiu-se imediatamente para o lugar onde o extraordinário objeto havia pousado.

A casa de residência do Sr. João Bello estava inteiramente tomada por uma grande multidão de curiosos e, sobre a mesa da copa, achava-se o objeto causador da imensa confusão que, finalmente, foi desfeita.

Continua após a publicidade

Na verdade, o estranho mecanismo nada mais era do que um aparelho captor e transmissor de sons, de características desconhecidas e contendo inscrições do Exército Norte Americano, normalmente utilizado na investigação e estudo das condições atmosféricas. Sobrepondo o aparelho inteiramente feito de baquelite (espécie de resina sintética, quimicamente estável e resistente ao calor), destacavam-se vários cordões ligados a um arco de madeira do qual desprendiam outras cordas emendadas a um paraquedas de papel vermelho, impermeável, dentro do qual existia uma bexiga de borracha provavelmente insuflada com o gás hidrogênio. Essa bexiga certamente rompeu-se no espaço e provocou o pouso do suposto “disco voador” em pleno solo porto-felicense.

Depois de examinado o objeto e descobertas as suas características, a autoridade policial pôs fim à confusão até então reinante na cidade e determinou a sua apreensão para, posteriormente, ser devidamente devolvido às autoridades militares competentes. Mas se tudo não passou de um imenso susto, a verdade é que no dia 3 de março de 1955 a população local experimentou, pelo menos por algumas horas, a sensação de viver uma grande expectativa por aquela que teria sido, à primeira vista, uma invasão marciana à cidade de Porto Feliz. Oh linda Terra de Araritaguaba / Das noites enluaradas / A reviver nas bandeiras / As tuas glórias passadas!