O estágio como motor de mobilidade social no Brasil

O estágio pode reduzir o apagão de talentos, ampliar a inclusão e aproximar educação e mercado de trabalho no Brasil

De acordo com a pesquisa, o total de desempregados foi estimado em 1,8 milhão de pessoas

O desemprego atingiu níveis historicamente baixos nos últimos trimestres, ao mesmo tempo empresas de diversos setores relataram dificuldades crescentes para contratar profissionais preparados. Foto: Thiago Neme/Gazeta de S.Paulo

O mercado de trabalho brasileiro vive um momento de profunda transformação. O desemprego atingiu níveis historicamente baixos nos últimos trimestres, ao mesmo tempo empresas de diversos setores relataram dificuldades crescentes para contratar profissionais preparados.

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Em meio a esse cenário de verdadeiro apagão de talentos, um debate fundamental precisa ganhar espaço: o papel do estágio como instrumento de mobilidade social e desenvolvimento econômico.

Muito além da formação profissional, o estágio representa uma oportunidade concreta de transformação de vida para milhões de jovens brasileiros.

Em inúmeros casos, trata-se do primeiro integrante da família a ingressar em um ambiente corporativo, conquistar renda própria e construir perspectivas reais de crescimento profissional.

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Em milhares de lares, essa experiência não significa apenas o início de uma carreira. Representa o primeiro crachá da história e o começo de uma nova trajetória familiar.

Os números ajudam a dimensionar essa realidade. Segundo dados do Inep/MEC, o Brasil possui aproximadamente 20 milhões de estudantes aptos ao estágio.

Apesar desse enorme potencial, conforme dados da Abres, apenas cerca de 1,2 milhão ocupa atualmente uma vaga.

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Na prática, escassos 5,5% dos estudantes conseguem acesso a essa experiência profissional. Os outros 94,5% permanecem fora dessa importante porta de entrada para o mercado de trabalho.

O desafio ganha ainda mais relevância quando observamos os indicadores sociais da juventude brasileira. Conforme dados recentes do IBGE, 18,5% dos brasileiros entre 15 e 29 anos não estudam nem trabalham.

Trata-se de milhões de jovens afastados simultaneamente da educação e da atividade produtiva, um cenário capaz de comprometer renda e crescimento econômico no longo prazo.

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Ao mesmo tempo, o ensino superior enfrenta outro problema estrutural: o descompasso entre academia e mercado. Dificuldades financeiras aparecem entre os principais fatores de evasão universitária, especialmente entre estudantes de baixa renda. Nesse contexto, a bolsa-auxílio deixa de representar apenas uma remuneração complementar.

Em muitos casos, ela viabiliza transporte, alimentação, acesso à tecnologia e permanência na faculdade.

Sem oportunidade prática, o diploma sozinho já não garante inclusão profissional. O estágio surge exatamente como o mecanismo capaz de romper esse ciclo, desenvolvendo competências técnicas e comportamentais fundamentais, como comunicação, inteligência emocional, responsabilidade e trabalho em equipe.

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Os impactos positivos não se limitam aos estudantes. As organizações também ganham em renovação interna, diversidade geracional, inovação e formação de talentos alinhados à própria cultura corporativa. Em um cenário de escassez de mão de obra qualificada, desenvolver talentos dentro da própria empresa tornou-se vantagem competitiva.

Outro indicador reforça essa relevância. Levantamentos da Abres apontam índices entre 40% e 60% de efetivação após o período de estágio. Ou seja, a experiência prática se consolidou como uma das principais portas de entrada para o emprego formal no Brasil.

Investir em estagiários não representa apenas uma ação de responsabilidade social. Trata-se de uma estratégia inteligente de competitividade, produtividade e inclusão.

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O Brasil possui uma geração conectada, criativa e com enorme potencial de desenvolvimento. Porém, se não for dada uma oportunidade concreta, transforma-se em desperdício econômico e social.

Ampliar o acesso ao estágio significa aproximar educação e mercado, reduzir desigualdades e acelerar a formação dos profissionais responsáveis pelo futuro do País.

Cada ano protelado, custará caro para a nossa sociedade.